CAP.07

7. EXPLICAÇÕES

Parecia ser domingo cedo quando eu acordara depois de um momento, digo horas de tensão com o Jacoh, de fatalidade.

Ele, Jacoh, havia acabado de sair e me deixado com o senhor Watson. Não sabia sobre o que ele iria discorrer, mas… Sei lá vamos ver no que dá.

Charles olhou para seu livro por um instante, tirou seus óculos e os colocou no criado mudo. Deu um longo bocejo, espreguiçou-se e fitou-me.

Foi nesse momento que vi o quão serio o senhor Watson era.

– Bom… – começou – você já deve desconfiar de algo. – arrepiei-me, mas continuei calado.

Meu pai arrumou suas madeixas e coçou seu belo nariz.

– Tem algo que tenho de lhe explicar… – continuou – ou você tem coisas a me explicar?

Engoli em seco. Eu tinha algo escondido de verdade, mas nada que eu…

– Me fala o motivo… – meus pensamentos foram interrompidos -… De você ter vindo para cá num intercambio.

– Bom, na verdade eu… Meio que fugi legalmente de casa. – O senhor Watson balançou a cabeça me forçando a continuar falando. Não resisti. – Então, um ano antes de vir pra cá, eu havia tido um colapso mental, se é que isso existe.

Pronto disse tudo, ou achava que havia dito tudo. Charles forçou as sobrancelhas, coçou o canto do olho e deu uma boa olhada em meu rosto. Forcei um biquinho de canto enquanto coçava meu queixo.

– Eu creio que você tem algo a mais para me falar, não é? – instigou. Semicerrei os olhos, bufei e…:

– Tá bom, tem mais. – afirmei – Nesse colapso que eu tive, eu pude escutar de relance pensamentos, mas não eram todos na minha língua.

– Você não tem nem idéia do que você é né? – interrompeu-me Charles. E era verdade, eu não sabia. Assenti. – Eu já suspeitava que você fosse diferente.

– Diferente como? – estou realmente muito curioso, não agüento mais ficar tentando descobrir qual é o meu problema.

– Bom… – começou – você já ouviu falar que existe super humanos, né?

O senhor Watson deve estar gozando da minha cara, mas assenti mesmo assim.

– Tipo aquelas pessoas que controlam água, tem poderes psíquicos e tal? – (haha) não me agüentei.

– Não. – disse seriamente meu pai inglês. Fiz uma careta e dei uns risinhos. Charles limpou o nariz com seu lenço e voltou-se em minha direção. – Super humanos, são aquelas pessoa que tem habilidades que requerem um esforço a mais do limite necessário.

Pensei sobre o assunto um instante.

– Então é tipo uma pessoa que sabe demais?

– É “tipo” algo assim, mas… Não vou te contar tudo agora, só o básico, pode ser?

– Claro! – animei-me, finalmente eu ia saber sobre algo alem da minha capacidade. Qualquer coisa bastava, pois saber nada de nada continua sendo nada, logo se eu souber alguma coisa já está valendo.

– Vou pegar algo pra você comer e chamar Jacoh para participar como nosso exemplo. Tudo bem?

Afirmei com o balanço positivo de minha cabeça. Ele saiu e comecei a pensar no assunto. Parecia muita loucura, mas… Pensando melhor, Jacoh quase me matou e eu quase o matei também. E não seria morte natural, tipo, facada ou tiro… Seria esmagado na parede sem o esforço algum de um objeto.

Depois de uns 10 minutos, o senhor Watson voltou com meu lanchinho, que parecia muito gostoso, e com o recém traumatizado, Jacoh.

O garoto sentou-se ao meu lado, no chão. O senhor Charles deixou a bandeja de pãezinhos recheados de presunto e queijo no centro da cama.

Enquanto eu e Jacoh nos deliciávamos, Charles começou a suas explicações sobre o assunto.

– Como eu havia dito, eu vou explicar por cima, sem muitos detalhes. Ok?

Assenti.

– Ai pai! Conta tudo logo, nem é muita coisa. – reclamou Jacoh.

– Quem disse que eu te contei tudo sabidinho?!

Jacoh deu uma bufada e abocanhou seu lanche. Fiz o mesmo e esperei que o Senhor Watson continuasse.

– Bom… – começou – Ninguém nessa casa é “normal” Luidge. – isso era obvio

– Como assim?

– Todos nós, exceto minha esposa, temos algum grau de mutação. – ah tá, agora sim, entendi tudo.

– Quando você diz mutação… O senhor quer dizer o que?

– Quer dizer que de alguma forma em nossa formação, sofremos alguma alteração gênica que nos deu ao acaso ou não um dom especial.

Eu boiei, quem mais? Isso não tem como ser de todo o falso, mas também não tem tanta credibilidade assim, ou tem?

– Nossa! Que cara de idiota Luidge! –disse Jacoh, e, pois é devia estar mesmo.

– E, como isso pode acontecer?

– É o seguinte Luidge… – disse Charles – vou dar um exemplo: conhece a Síndrome de Down né? – assenti – Então, essa síndrome é causada por um erro genético, infelizmente nesse caso, esse erro não foi benéfico.

– Ah! – interrompi- Então no nosso caso esse erro foi benéfico?

– De certa forma foi.

– Mas, eu ainda não sei qual é a nossa síndrome.

– No nosso meio, é chamada de Síndrome de Theós.

– E… É sempre igual pra todo mundo?

– Não. O grau de mutação é variável. – assenti.

Peguei mais um pão. Pensei sobre o louco assunto, que agora fazia um pouco mais de sentido. Jacoh brincava com o carpete.

Eu ainda não havia entendido esse lance de graus de mutação. Acho que vou perguntar.

– E, quais são esses níveis?

– Hum, boa pergunta Luidge. – Jacoh revirou os olhos – Bom, os humanos que não tem essa síndrome, nos classificaram em categorias.

– Aff – reclamou Jacoh – isso que dá não ter nada pra fazer!

– Bom, continua Senhor Watson, por favor.

Charles pigarreou, arrumou os óculos e pegou um lanche.

– É o seguinte, Luidge: Jacoh, seu irmão “querido” – morri de rir. O garoto emo olhou-me e deu um sorriso de leve – é classificado Humano da Subclasse Suporte, ou seja, um HS.

– E… O senhor pode me explicar o motivo? – tive que perguntar, não sabia o que era.

– Você pode demonstrar Jacoh? – pediu Charles

– Com prazer papai…  – respondeu o garoto.

O menino olhou-me fundo nos olhos, vi que sua pupila tornou-se branca e sua iris vermelha; igualzinho como daquela vez.

Porem dessa vez eu senti uma ansiedade tremenda, comecei a suar frio e…

– BASTA JACOH! – gritou Charles a tempo de qualquer coisa.

– Eu já ia parar pai, calma! – disse carrancudo o menino.

– Entendeu a classificação de HS Luidge?

Na verdade não, mas assenti positivamente, não queria que o senhor Watson achasse que eu fosse burro.

– Aposto que você não entendeu. – afirmou Jacoh

– Tá! Eu não entendi!

– Deixa que eu explico pra ele pai. Eu sou considerado humano, como você pode ver, pois eu não tenho um poder espetacular e sou da subclasse Suporte, pois eu uso meus poderes indiretamente para conseguir o que quero, sem que me notem.

– Hum… Entendi agora. É a mesma coisa que o Professor de Literatura faz.

Meu pai e Jacoh me olharam de forma estranha querendo achar lógica no que eu acabara de dizer.

– Só pensei alto… – afastei os olhos curiosos.

– Continuando – disse Charles – Ollivia é uma AAAg – Hum… Sei pensei comigo mesmo – Ela é da classe Anjo, da subclasse Anjo ou Anjo da guarda.

– Anjo porque ela alegra ou acalma situações ou corações ou ainda desperta um poder oculto em alguém querido por ela, essa seria a função do Anjo da guarda. – disse Jacoh enfatizando anjo da guarda.

Foi ai que caiu a ficha. Jacoh estava bravo comigo durante todo esse tempo pois parece que a Olly é o anjo da guarda dele.

– Então Olly é o seu anjo da guarda?

O garoto emo olhou-me com cara de desdém com um sorriso torto, acetei como um sim.

– E o que ela desperta em você?

– Quando ela chegar eu mostro…

– Promete? – Jacoh assentiu. Virei para Charles e perguntei sobre Summer.

– Bom… Summer é de uma Classe diferente, ele é considerado um DS

– Que seria? – perguntei

– Que seria da classe Divina da subclasse Semideus.

Meu mundo caiu (cantei em minha mente)

– Putz! Que tudo! Sério!

Jacoh revirou os olhos e voltou a comer.

– Ele não gosta muito, queria ter nascido normal.

– Já sei o motivo. – disse, pois logo pensei na Flies – E, o que ele faz de tão extraordinário?

– Ele é um semideus, ou seja, precisa de um estimulo para apresentar seus poderes.

– No caso dele… – estava muito ansioso.

– A temperatura. Quanto mais quente for mais seu corpo inflama.

– A tal alergia?

– Isso, ele pega fogo.

– Nossa deve ser difícil pra ele…

– pois é. – disse Jacoh baixinho, quase um sussuro.

– E o senhor? Onde se encaixa?

– Bom eu sou um Ex-DO, ou seja, Divino como Summer, da subclasse Olimpiano. Era chamado de: Athena, a sapiência viva. Mas isso já faz muito tempo e, vamos deixar esse assunto para mais tarde sim?!

– Nossa! Então o senhor é super inteligente?

– Modéstia a parte eu sou sim, “muito” inteligente.

– Convencido – disse Jacoh. – mas lembrando que agora o senhor é só um DD

– E isso é?

– Como eu não sou Olimpiano, caí para Deus, DD

Estou adorando saber de tudo isso, é muita informação, muita coisa, muito poder, muita classificação e subclasses, tenho muito que aprender ainda.

Só faltava saber onde eu me encaixava, a que grupo eu pertencia.

– Falta falarmos de você Luidge.

Senti um vento frio na barriga, uma ansiedade tremenda por saber a resposta daquilo que tanto me atormentava.

Olhei para meu novo pai com brilho nos olhos.

– Sem mais delongas – começou Charles – no mundo humano, você é considerado um DP – a voz de Charles falhou, mas continuou firme.

Jacoh olhou assustado para seu pai. Fiz o mesmo. O que seria DP, e porque seria tão assustador assim.

– E… O que quer dizer? – perguntei hesitante.

– Divino da subclasse Pandora. Uma fase de transição até que se torne um DT

– Sério que temos um DP em transição aqui em casa?! – disse Jacoh com tom de desespero.

Charles afirmou com o balançar da cabeça.

– Só uma coisa eu estou em transição do que para o que?

Fez-se silencio.

 

Anúncios

CAP.06

6. HORMÔNIOS

 

Era sábado. O Sol estava lindo no céu nublado (bom, adoro céu nublado).

O senhor Watson havia acordado mais cedo para fazer o café da manhã. A mesa não estava farta como de costume, mas ele cozinhava igual ou até melhor que minha nova mãe.

Jacoh sentou-se a minha frente, mas como sempre, nem olhou para mim, minto, Charles o fez forçar um sorriso; dei umas risadinhas simpáticas, mas Jacoh pareceu, ou melhor, parece não ligar para minha existência.

Após o café da manhã, fui estudar um pouco em meu quarto, tinha muita coisa atrasada ainda e, precisava adiantá-las, pois as provas logo chegam. Enquanto fazia uns exercícios do senhor Numberous, pensei em alguns motivos para Jacoh me detestar tanto. Talvez eu passasse muito tempo com Olly e isso estivesse afetando ele de alguma forma, ou talvez eu esteja tirando dele o que lhe sobrava de atenção, não sei ao certo.

Continue fazendo sem pressa os exercícios, eram muito complicados, mas nada muito especial, eu já havia tido essa matéria no Brasil.

Já havia passado quase duas horas de estudos, desci para beber água e comer algo.

Quando subi, passei em frente ao quarto de Jacoh e percebi que ele não estava no quarto, lembrei que nunca havia entrado no quarto dele. Olhei em volta e não vi sinal dele por perto e, decidi aventurar-me.

O quarto era bem iluminado, nada de muito diferente de um quarto adolescente normal. Pensei que ia ser bem diferente, tipo um quarto escuro com teias de aranha, uma cama em forma de caixão, sei lá.

Quando matei minha curiosidade, Jacoh aparece bem atrás de mim.

-Ai que susto! – gritei

– O que você faz aqui?  – me espantei com a calmaria dele. Sempre quando falava comigo, ou era em tom de deboche ou gritando, uma total loucura.

– Nada, só queria ver.

– Gostou do que viu? – mais uma pergunta estranha. Só balancei a cabeça positivamente.

Nesse momento eu me senti estranho, com frio na barriga. Jacoh avançou e eu recuei quarto adentro. Tropecei em sua mochila e fiquei caído junto a uma quina de parede. Comecei a suar frio.

Jacoh sentou-se em meu abdômen de pernas abertas. Achei muito estranho, mas meu corpo não conseguiu reagir. Algo estava me controlando e eu não sabia o que era.

Comecei a salivar continuamente. Meu fôlego não acompanhava meu respirar tranqüilo, agora ele seguia ritmos mais rápidos. Jacoh continuou em silencio e deitou sua testa na minha. Pude sentir sua testa fria na minha.

O menino emo passava a língua vagarosamente nos lábios. Isso estranhamente me deixava excitado, não era para eu estar assim. Uma força estranha em minha cabeça dizia para que eu o beijasse, mas não pude me mexer, e nem queria.

Jacoh avançava. agora seu nariz tocava o meu. Pude sentir sua respiração, quente, isso me deixava com mais excitação. Queria que essa situação logo acabasse, mas algo queria muito mais, e quando digo mais, realmente quero dizer mais.

Que loucura! Mas no que é que eu estou pensando?! Pare de pensar nisso Luidge, recobre o controle de seu corpo homem. Puxa como ele é sexy, olha esses olhos. Aff de novo, pois é meu amigo, eu não consigo mesmo me controlar, a única coisa que consegui fazer foi fechar meus olhos e deixar rolar.

Minha respiração estava ofegante e meu coração havia acelerado ainda mais, estava muito ansioso pelo o que iria acontecer, eu nunca havia beijado um garoto antes, acho que deve ser a mesma coisa, ou melhor, só um pouco mais estranho. Boca é tudo igual mesmo, umas com mais carne e outras com menos. Reabri os olhos e sua mão direita estava dedilhando meus lábios, enquanto sua mão esquerda puxava minha nuca para frente.

Até então Jacoh não havia me olhado diretamente nos olhos. Foi só eu pensar nisso que logo ele me deu uma fitada e pude ver que suas pupilas estavam brancas e seus olhos incrivelmente vermelhos.

– JACOH! PARE JÁ COM ISSO! – ordenou uma voz forte. Não reconheci na hora, pois alguma coisa também estava afetando meus sentidos. Sério todos eles. Vista embaçada, a pele formigando, a língua dormente, não estava conseguindo distinguir sons e, acho que meu faro estava normal, sei lá, tanto faz, faz tempo que não sinto cheiro de muita coisa.

Jacoh rapidamente se levantou e se afastou de mim. Por um momento pude ver de quem era a Voz. Charles, meu pai temporário aqui na Inglaterra.

Lembrei de relance do meu ultimo sonho. Jacoh estava sorrindo de forma maligna e seus olhos avermelhados me fitaram. Temi o pior.

Meu coração começou a acelerar, e uma onda de pressão bombardeou minha cabeça com dores fortes. Senti tudo embaçar, mas pude sentir que estava mais leve. Parecia não estar mais no chão, meio que flutuando.

As dores continuavam me afligindo percebi que a mobilha de Jacoh também estava suspensa junto comigo. Eu parecia estar gritando de dor, exclamando algo como pare ou me ajude, sei lá.

A voz do senhor Watson pareciam não surtir efeito, mas pude ouvir algo como “tente Pará-lo Jacoh”, mas o menino, ou pelo menos sua silhueta, estava paralisado diante de mim.

Quando pensei que estava parando, comecei a ouvir vozes muito alem do meu conhecimento, tipo:

“Aff! De novo esse episodio!?”

“… não acredito que você beijou o Felix!”

“… lembra daquele dia em que nós fomos lá ao lago e… Huhuhu…”

“Odeio esse filmes estrangeiro eles só me…”

“… o que foi que eu fiz…”

Outra onda de choque me acertou, eu caí no carpete do quarto de Jacoh e pude ver por um por um instante a parede rachando e as canetas do estojo de meu irmão novo e chato encravar na parede ao redor do mesmo, Jacoh.

Eu só podia estar louco, não era possível que estivesse voando por um momento, ouvindo vozes e fazendo as coisas racharem. Logo após, vi Jacoh sendo prensado na parede, ele gritava de dor, pedindo para que eu parasse, mas não pude, pois algo dentro de mim queria destroçá-lo.

Ele continuava a gritar:

– ME AJUDA PAI! – ele fazia uma cara de quem não agüentaria por muito tempo.  – O FAZ PARAR! – agora eu tinha certeza que estava o matando.

Charles se aproximou de mim, quando o olhei de relance, ele já não estava mais ali, uma onda de choque atingiu meu cérebro e o senhor Watson estava fora do quarto. A porta se fechou. Estava somente eu e Jacoh no quarto.

Eu não estava mais suportando a dor em minha cabeça e não agüentaria viver com uma família em que eu havia matado seu filho de uma maneira bruta.

O pai de Jacoh batia insistentemente na porta pedindo para que eu parasse.

Nisso, olhei mais uma vez para o rosto aterrorizado do garoto e observei que seu nariz sangrava. Desesperei-me.

– EU NÃO CONSIGO! – Finalmente eu juntei força e gritei rapidamente.

– Tente não pensar demais! – retrucou Charles, de forma firme e clara.

– NÃO ACHO QUE VAI DAR CERTO!

– SOCORRO! – gritava o garoto

– Você já está falando comigo é um bom sinal.

Tentei me concentrar em matemática, mas Jacoh continuava berrando de dor. Mas de forma mística adormeci. Simplesmente apaguei.

Quando acordei, Jacoh estava ao meu lado sentado num banquinho.

Ergui-me devagar, ele me ajudou. Seu semblante ainda era de um gatinho assustado, não era de se espantar, eu quase o matei.

– Oi… – disse o garoto timidamente, com a voz fraca e bem baixinha, quase um sussurro.

– Oi – respondi meio confuso, eu ainda não sabia quanto tempo eu estava apagado, ou se eu havia tido um sonho.  – É… – comecei – Bom… – não sabia o que falar para ele, alias Jacoh não gostava muito de mim, e eu ainda não tinha certeza de muita coisa. – Você…

– Desculpa! – Jacoh me interrompeu bruscamente. Fiquei espantado e rapidamente ergui minhas sobrancelhas e arregalei os olhos. Pisquei algumas vezes. Não era sempre que se ouvia a pessoa de Jacoh pedir desculpas. Pensei um pouco e resolvi balançar a cabeça positivamente, mas antes disso eu me atrevi a perguntar algo que estava me matando.

-Desculpar pelo o que?  O que exatamente aconteceu? – Jacoh revirou os olhos, baixando-os, deixando-os longe dos meus.

– Eu sem querer…  – iniciou – Ativei algo sem querer… Desculpa.

Hã?! Pensei comigo mesmo. O que ele havia ativado? Estava totalmente perdido.

– O que foi ativado?

– É… Você não sabe ainda né? – se eu soubesse não estaria perguntando, pensei, só pensei. Balancei a cabeça negativamente. – Eu não sei direito o que você é, mas… – agora eu sou alguma coisa, que interessante – algo que eu fiz, fez algo dentro de você acordar… – fitei o garoto descrente de tudo.

– E, o que você fez comigo naquela hora? – um assunto muito delicado.

– Bom, eu, é, você sabe, eu…

– Calma Jacoh. Explica devagar. – ele parecia muito nervoso e, eu convenientemente quis ajudá-lo.

– Eu queria lhe dar uma lição, mas eu não consegui

– Ai você…? – instiguei.

– Eu estimulei seus hormônios a meu favor. – Como? Pensei alto.

– Como?

– É difícil de explicar. Meu pai lhe explica depois.

Beleza. Ele havia estimulado meus hormônios a seu favor. Realmente muito místico. Fez um silencio, mas em minha mente eu continuava a pensar na estimulação de hormônios. O que levou ele a me estimular a seu favor. Será que deveria perguntar? Não sei. Agora depois do ocorrido, Jacoh Watson parecia um adolescente “normal”.

Fitei-o por um instante e vi que seus olhos estavam inchados de tanto lacrimejar e, que sua Iris estava mais clara, pois suas lagrimas haviam lavado seus olhos durante a tortura que lhe causei. Sua franja negra cobria parte de seu rosto como sempre.

Agora que o olhei melhor, Jacoh é bem bonito. Os três têm o mesmo tanto de beleza, não era pra menos, seus pais eram deuses gregos esculpidos em carne.

– Desculpa. – disse ao menino assustado com um sorriso simpático no rosto.

Ele virou-se para mim, balançou a cabeça de forma positiva e abriu um sorriso estonteante, igual ao de Ollivia. Fiquei surpreso, pensei que ele não possuía a capacidade de sorrir.

O silencio voltou novamente, mas me atrevi a quebrá-lo.

– Doeu? – Jacoh fitou o nada por um instante. Não demorou muito tempo. Ele balançou a cabeça devagar e piscou algumas vezes. – Eu não consegui parar, eu…

– Tudo bem… – disse o garoto olhando em meus olhos – Eu também fiz você sentir coisas contar sua vontade, então estamos quites.

– Beleza. Eu só tenho mais uma pergunta.

– Pode falar…

– Por que você me odeia tanto? – graças ao bom Deus eu perguntei isso. Estava formando um nó na minha cabaça ter que guardar essa duvida cruel. Finalmente vou saber a resposta.

– Hum… – Jacoh começou a pensar. Parecia uma eternidade. O que será que ele estava pensando? O garoto começou a mudar sua expressão. Ele bufou e tentou fugir. Eu rapidamente ergui meu braço e agarrei seu braço. – Calma. Eu não estou brigando com você. É uma pergunta amigável. Se não quiser me contar tudo bem.

Jacoh sentou-se novamente e respirou profundamente. Ficamos em silencio por um bom tempo.

– É por causa da Ollivia. – a voz do menino rompeu o constrangedor silencio.

– O que tem ela? – ousei perguntar.

– Sabe os anjos da guarda? – meu irmão emo estava à beira do delírio, agora eu tinha certeza de que ele é louco.

– Sei. – afirmei cético.

– Ollivia é o meu anjo. – morri. Jacoh é louco.

Antes que eu pudesse perguntar alguma coisa a mais a Jacoh. O senhor Watson entrou em meu quarto e disse que queria falar comigo e, pediu para que seu filho fosse comer alguma coisa, para nos deixar sozinho.

Antes dele sair do quarto, atrevi-me a perguntá-lo algo que estava preso em minha garganta, depois de passar um bom tempo com ele:

– Jacoh! – chamei. O garoto parou do lado de fora da porta, e me olhou pelos ombros. – Amigos?

O menino emo virou o rosto para a saída, acenou com o polegar de forma positiva e fechou a porta.

 

CAP.01

CAPITULO I

 

Bom, como já é de seu conhecimento, eu sou toda a tristeza deste mundo. Sou o filho mas velho das emoções, que é meu pai, com as estrelas, minha mãe.

Vou contar-lhes como minha mãe conheceu meu pai e como enfim eu nasci:

Pelos relatos que as estrelas contam, aquele que representa as emoções, tanto humanas quanto divinas, era o ser divino com uma beleza rustica e impenetrante; filho da regra e da devoção, nasceu com o dom de ditar sobre quaquer tipo de emotividade, podendo aflorara ou inibila a seu bel prazer. No geral ele é controlado, só houve uma vez que seu poder divinal saiu do controle, mas isso é outra história;

Minha mãe, a representante de todas as estrelas, nasceu com uma aurea tão brilhante que nunca se podia ver seu rosto, mas cá entre nós, minha mãe é a deusa mais bela do panteão. Vou descreve-la: por de tras da glória, seus olhos eram da cor do chocolate, tão denso, que dava vontade de consumi-los, seus cabelos faziam curvas e pareciam nunca acabar, eram de uma cor tão intensa, brilhante, que muitos de meus primos divinos e mortais quiseram seus cabelos para fazerem armas ou instrumentos musicais e, esses itens confeccionados nunca foram destruidos antes, pois são indestrutiveis. Sua pele era tão branca que só seus olhos ressaltavam.

Esse são mês pais, mas como eles se conheceram? Vou contar:

Dizem , que na noite mais escura, uma luz desceu dos céus, só para se banhar sob o luar. Foi ai que o senhor das emoções viu a estrela mais brilhante sem sua glória, e, consequentemente se apaixonou.

Minha mãe pediu ao meu avô a benção para se casar com meu pai; mas meu avô, o atemporal, não permitiu essa união.

A estrela mais brilhante chorou sob os pés de meu pai e, ele criou coragem para enfrentar um dos principes herdeiros do deus que controla o universo.

Papai tentou influenciar as emoções de meu avô, mas sendo atemporal, não sofre nenhuma influencia. Minha mãe ficou tão triste e abalada que meu pai pode sentir essa profunda tristeza… foi ai que eu nasci: a noite se tornou negra e o choro de minha mãe varreu a terra com lagrimas de tristeza e meu pai recolheu cada uma delas, formando as gotas salgadas de lamento em um bebê.

Eu nasci com os cabelos dourados de minha mãe, seu olhos achocolatados e leitosos, praticamente uma cópia, só uma coisa me difere dela; todos que me olham, logo se deprimem e desejam morrer.

Não nasci da maneira tradicional, como puderam ver. Nasci da união de pensamentos de meus pais.

Bom, meu avô soube de mim, mas não me destruiu. Ele deixou-me ficar com mamãe, para ela poder lembrar do grande buraco que existe em seu coração, por não poder se casar com aquele que rege as emoções.

Ela foi trancafiada junto comigo na torre mais alta dos céus. Por eu representar a tristeza eterna, minha presença constante faz com que pessoas e deuses se percam numa profunda depressão. Mas, por mais incrível que pareça, meus pais eram os unicos que eu não podia interferir.

Mais tarde naquela mesmo dia, eu soube que meu pai invadiu o Castelo Norte (depois eu explico melhor), e tirou minha mãe de sua prisão.

Eles fugiram para densa floresta que existia entre os mortais, chamada de Floresta dos Encontros (tem esse nome, pois todos os amantes que lá se refugiam, tem seus atos de amor encobertos, ou seja, nem mortal nem imortal conseguem ver através das copas). Foi com essa alegria que meu irmão nasceu.

Odracir, seu nome divino, é aquele que torna todas as cituações em momentos de alegria e felicidade. Meu pai contou que ele nasceu com um sorriso iliminado. Seus cabelos eram negros como os de meu pai. Olhos extremamente verdes que faziam qualquer um se tranquilizar.  Ele, meu pai, sempre dizia que só de olha-lo, as dores do passado sumiam por algum tempo.

A alegria deles durou pouco, pois meu avô, Orhati, devastou a floresta e os descobriu. Ele tomou meu irmão e o trancafiou junto de mim. O deus atemporal tomou minha mãe em seus braços, a abraçou e disse:

– Tu és a mais preciosa… perdoa-me pelo que farei asseguir… – uma lagrima saiu de seu rosto e a puniu.

Ele a lançou céu afora e a fez colidir com o espaço, tranformando no céu estrelado, deixando-a longe de meu pai por toda eternidade.

Meu avô, em outros momentos, também puniu suas outras filhas: Adinavi, a Lua, só podia ver seu amado durante as noites, exeto em caso de Lua nova ou eclipse lunar; Avidi, o Sol, só poderia visitar seu marido de dia, exeto em caso de eclipse Solar; Ardinas, o calendário, uma vez por ano sem restrinções.

Foi nesse momento de furia que o deus das emoções enrraiveceu, seus sentimentos se fundiram com os fragmentos das estrelas e nasceu aquela que detem a furia em suas mãos, Anigéria. Ela tinha os cabelos castanhos avermelhados, olhos escuros, que à luz solar tornavam-se vermelhos e uma pele acobreada.

Meu pai segurou sua filha nos braços e suplicou ao meu avô que devolvesse a mim e a meu irmão, para que ele tenha alguma recordação de minha mãe.

Ele ignorou seu pedido e disse que as estrelas da noite bastavam para isso e, tomou minha irmã.

Eu nunca mais vi meu pai, dizem que ele se dividiu em varios fragmentos de tristeza, alegria, raiva e muitas outras emoções e agora faz parte do ser humano. Já minha amada mãe, todas as noites eu ainda posso admira-la por mais um instante.

Foi assim que eu nasci, como ganhei irmãos e como perdi meus pais.

Agora que você já sabe um pouco de mim, direi meu nome: Me chamo Otaner, a profunda tristeza, muito prazer.

 

CAP.05

5. 37°C

Duas semanas se passaram. Estávamos quase no fim de maio. Logo seria verão aqui no hemisfério norte.

Como de costume era dia de ir à escola. Tomei meu banho, sempre demorado e com muito capricho. Arrumei-me como sempre fazia, vestindo aquela roupa horrorosa da escola.

Bom, apesar desse item desagradável, desci para tomar um café da manhã digno da realeza. Dona Anna era muito boa na cozinha: havia sobre a mesa, três tipos de bolo, dois tipos de pães, toda sorte de biscoitos, panquecas gostosas (lembrei do seriado da Disney, Os Feiticeiros de Waverly Place) e um monte de outras coisas também.

O ônibus escolar passou e fomos embora. A única curiosidade naquela manhã foi que, bom, Summer não estava lá para apressar todo mundo. Foi estranho seguir viagem só com Jacoh. Ainda bem que para salvar o dia Coraline estava lá.

– E ai brasileirinho?! – era como ela me chamava. Não era um apelido muito criativo, mas… – Cadê seu irmão Summer?!

– Eu não o vi essa manhã.

– Que pena – ela realmente sentia algo por ele. Deu uma pontada no coração quando ela disse “que pena” com tanto peso.

– Amanhã ele vem – afirmei – para sua felicidade. – dei um sorriso tentando imitar Summer. Não pareceu convencer. Flies me deu uma cotovelada e caiu na gargalhada. Ri para não perder a amizade.

Fomos para nossa aula de matemática. A aula não era muito boa, acho que o senhor Math Numberous deveria ser demitido para uma renovação, mas se a escola gosta tanto dele; vivas de alegria!

– Ai que aula chata… – reclamou um garoto na minha diagonal de trás.

– É mesmo. Não estou me agüentando na cadeira. – concordou uma garota que estava ao seu lado.

Número vem e, contas vão e finalmente o sinal da primeira aula toca. A próxima aula é de biologia, adoro qualquer coisa relacionada à biologia. Creio que seguirei essa carreira quando for para faculdade.

Sentei bem na frente dessa vez. Coraline sentou-se atrás de mim. A professora não apresentava ter mais de vinte e cinco anos. Ruiva, alta, com olhos magníficos de um tom verde vítreo, realmente me despertava calores só de olhá-la.

Ela estava falando sobre como os cromossomos são organizados, sobre o DNA, enfim, coisas sobre genética.

– Heatsun. – tremi na base. A professora Blazeness me dirigiu a palavra. – Supúnhamos que uma família seja formada por quatro pessoas, sendo que os pais possuem olho azul. – assenti – A pergunta é: – estava muito ansioso para responde-la – os filhos do casal possuem qual cor de olho?

Realmente era uma pergunta muito fácil. Uns garotos da minha diagonal sussurravam a resposta, obviamente errada.

– Obrigatoriamente azul. – A senhorita Dia, fez uma cara de: nossa que inteligente esse brasileiro. Como se todo brasileiro fosse totalmente tapado e analfabeto e eu a única exceção.

– Me explica o motivo.

– É o seguinte… – comecei – se ambos os pais te olho azul, ou seja, recessivos. Os filhos só poderão nascer com olhos claros. Se algum deles tiver um olho castanho, por exemplo, ele é adotado, pois os pais não possuem um gene que combinados entre si de um olho castanho. – ufa! Estava super tremendo de nervosismo quando acabei. A sala ficou em silencio.

– Muito bem classe; aprendam com seu colega Heatsun.

Senti-me o máximo, ou seria realmente eu sou o máximo. Ri interiormente. Enquanto a aula se desenrolava, Flies me cutucava. Eu estava perdendo a paciência. Apesar dela ser uma garota, homens e mulheres tem direitos iguais nesse mundo.  Se ela me cutucasse mais uma vez se quer eu quebraria sua cara.

– Cara! – exclamou Flies. Virei-me para escutá-la – Você realmente é impressionante.

– Eu só respondi a pergunta. Se você estudasse mais, também saberia a resposta.

– Aff!

Depois da gostosa aula de biologia, seguimos o dia com as outras aulas do horário. Era quase meio dia e eu ainda não sabia onde estava Summer. Bom, pelo menos Coraline ficou comigo o tempo todo. Junior Também. Bom, Junior era só um apelido, o nome dele de verdade é Tanaka Nagazawa, o chamamos de Junior por que ele é pequenino, só por isso. Ele acaba de se mudar do Japão pra cá. Seu pai veio a trabalho. Ele é bem divertido. Tem os olhos negros e rasgados como todo japonês; e seu cabelo é bem denso com um corte moicano simples. Junior era o único que conseguia deixar o uniforme da escola descolado.

Ele usava todo tipo de acessório e ele mesmo customizou o uniforme. Deixava a gola da camisa para cima, fora da calça, e deixava desabotoados os dois primeiros botões da camisa. Sempre ia de All Star, sempre um diferente do outro, e usava um cinto muito louco.

– O que vocês vão fazer agora? – perguntou Junior

– Almoçar né?! – disse Flies “carinhosamente”

– Nossa que grossa Coraline, vê se me erra.

– Calma, Junior, vem almoçar com a gente. Prometo que ela vai se comportar. Né?! – dei uma cutucada em Flies.

-Ai! – Coraline me olhou feio, como se quisesse me matar ali mesmo no corredor da escola,mas como ela é uma boa amiga, apesar do pouco tempo juntos, atendeu meu pedido. Cora, um apelido que ela detestava, fez um “X” no ombro esquerdo. – Prometo tampinha… – olhei feio pra ela, Flies bufou – Prometo Tanaka. – corrigiu-se

Bom, resumindo: almoçamos no refeitório do colégio. Estava muito gostoso apesar do que todo mundo diz, eu realmente adorava a comida do colégio. Tivemos um momento juntos, onde conversamos sobre nada literalmente. Voltamos às aulas e fui-me para casa.

Dei boa tarde a todos assim que eu cheguei; somente o isolado (Jacoh) não me respondeu. Subi para trocar de roupa, e guardar as minhas coisas. Enquanto tirava a camisa do uniforme percebi que não vira Summer em momento algum do dia. Onde será que ele se meteu? Pensava comigo mesmo; aposto que o senhor e senhora Watson iriam pirar se soubessem que meu querido e radiante irmão desaparecera.

Bom, apesar desse pequeno problema, tudo estava corriqueiramente dentro dos planos diários; e quais seriam eles? Simples e fácil de guardar: levantar de manhã, ir a escola, voltar para casa, passar um tempo com a família e dormir para um novo raiar de dia. Eu disse que era fácil.

Desci as escadas vestindo um shortinho básico azul, uma camisa velha com a bandeira de meu país e minhas Havaianas. O jantar estava na mesa. O cardápio de hoje era purê de batatas com salsinha, pelo menos eu achava que era podia ser tanta coisa, por exemplo, cebolinha; Salmão grelhado ao molho de maracujá, muito exótico para meu gosto, mas estava tudo uma delicia. Enquanto jantávamos, percebi que ninguém aparentemente sentiu falta de Summer, a alegria da casa.

– É… – bati no copo com uma colher para chamar atenção – Cadê o Sammy? – alem do apelidinho super carinhoso, ousei em perguntar sobre ele, já que ninguém ficou surpreso por ele não dar as caras o dia todo. Jacoh revirou os olhos, bufou e pediu licença; ele simplesmente se retirou, como se minha pergunta fosse obvia demais para ele. Olly me olhava fixamente com seu sorrisinho básico. Anna olhou para seu marido como se entre linhas dissesse: agora conta, não tem outro jeito.

– Bom… – começou Charles – ele tem certo problema com o Sol, um tipo de alergia…

– Nossa! Que horror!- não me contive, realmente era algo inesperado.

– Bom, é só um defeitinho de fabricação. – A senhora Watson riu-se.

– Mas, por exemplo, onde ele esta?

– Então, quando a temperatura sobe; digamos uns 37ºC mais ou menos, ele fica aqui em baixo no porão.

– Nossa que coisa triste. – muito, muito triste. Como um garoto pode se trancafiar no porão por causa de uma alergia? Me diz? Como faz?

– Já procuramos médicos, mas nenhum sabe como curar.

– E eu posso vê-lo?

– Ele se tranca no porão. Ele prefere ficar sozinho nos dias de pico. Desculpa filho…

Dei de ombros e comecei a degustar de minha sobremesa, um mouse de chocolate. Em cada colherada que dava no meu delicioso chocolate, pensava nessa tal alergia doentia de Summer. Como é que ele podia ter um negócio desses, ele era tão vitalício, enérgico; ele é muito parecido com o Super-Homem, ou seja, um bosta (desculpe a minha falta de cordialidade) literalmente. Basta à temperatura aumentar e o senhor “Adoro-o-Sol”, se esconde no porão.

– E como é essa tal alergia?

Ollivia se lambuzava de chocolate, e dona Anna, como uma boa mãe, limpava-a com carinho. Charles, meu pai, pensava como me responder à pergunta que eu acabara de fazer. Eu creio que estou começando a não querer saber a resposta de tal pergunta. Será que é uma alergia monstruosa que deixa o coitadinho cheio de feridas, eca que nojo.

– Então, eu só vi uma vez… – o senhor Watson deu uma olhada rápida pra dona Anna – você sabe que ele tem umas manchas alaranjadas no olho né? – fiz que sim com a cabeça – então quando a temperatura sobe demais e os raios UV se tornam intensos, o olho dele fica todo laranja e lacrimeja muito e se mistura com uma secreção amarelada… – fiz uma cara de nojo momentânea e balanceia cabeça para ele prosseguir. – A pele dele fica rachada, tem umas erupções de sangue repentinas, um horror.

– Eca papai! – interveio Ollivia com sua opinião.

-Hum… – suspirei eu. Realmente ele tinha razão de ficar sozinho lá no porão. Se eu visse um troço desses andando por ai, morria do coração. Coitado de Summer. Depois de saber de sua alergia, tive muita pena dele. Imagina se ele estivesse namorando a Flies, e de repente a temperatura subisse e ele tivesse que se esconder no porão…

– Hahahaha! – não agüentei, tive que rir, era uma situação tão engraçada.

– Então você está rindo da desgraça alheia né senhor Heatsun? – disse a senhora Anna. – vem me ajudar a lavara louça mocinho.

Muito chato lavar louça, mas só tinha eu na cozinha para ajudá-la. Olly foi brincar com Jacoh lá no quarto dele e o senhor Watson é o chefe da casa, logo não lava louça; só trabalha para sustento de sua família.

Bom, acabei de lavar e minha mãe guardou a louça e limpou a cozinha hum instante.

– É… Luidge? – perguntou Anna

– Sim

– Você quer tanto falar com Summer, então eu pensei se você poderia levar o jantar para ele.

-Claro! – disse super alegre, não esperava a hora de vê-lo, a Cláudia também estava muito afim (uma expressão brasileira).

– Que bom. – minha mãe sorriu e me entregou uma bandeja pesada; Sammy comia demais. – você sabe onde fica?

Eu estava lá já fazia um tempo, mas ainda não sabia onde ficava o bendito porão. Fiz que não com a cabeça.

– Depois da escada, logo tem uma porta, é só abri e descer as escadas. Lá embaixo tem outra porta…

– O porão. – completei.

A mulher cheia de maternidade nos olhos disse sim com a cabeça e fui ao encontro do monstro Summer, haha, continua muito engraçado.

Abri a primeira porta e comecei a descer. À medida que eu descia os degraus, pude sentir a temperatura subir. Logo deduzi que era o aquecedor da casa. Aproximei-me da porta onde estava confinado Summer e pude ver por debaixo dela uma luz alaranjada ou tremeluzindo de um tom amarelado.

Bati na porta uma vez e, ninguém respondeu. Bati uma segunda vez; ouvi uns passos.

– É você mãe? – disse Summer com cautela.

– Não…

– O que você faz aqui em baixo Luidge! – primeiro ponto: ele reconhece minha voz; segundo ponto: ele não gostou que eu fora até lá, só pelo tom de sua voz pude perceber.

– A mãe disse que eu podia vir…

– Eu avisei pra ela que não queria que você descesse até aqui!

– Desculpa. Eu não sabia que essa sua alergia era tão importante assim…

Deixei a bandeja ao lado da porta e comecei a subir as escadas, me sentindo péssimo por querer fazer companhia ao meu novo irmão que estava passando por dificuldades. O calor que me assolava estava diminuindo quando eu ouço um ranger de porta se abrindo.

– Luidge… – Minha mão já ia virar a maçaneta quando Summer chamara. – hum… Será que você pode me fazer companhia?

Mantive o silencio e não virei para olhá-lo, esperei até que ele se desculpasse e implorasse, que exagero, pela minha presença.

– desculpa por ter te expulsado. É que só minha mãe vem aqui em baixo quando essa droga de alergia aparece e, quando ouvi sua voz fiquei aterrorizado, não sabia o que fazer e…

– cala a boca Summer! – disse num tom muito seco. Não virei para olhá-lo. Abri a porta rapidamente e bati-a atrás de mim. Summer foi um grosso mal educado. Como é que ele pode fazer uma desfeita com alguém que o quer ajudar, que se importa com ele. Senti-me um pouco como Coraline, que gosta tanto dele, mas é sempre repelida por ele. Não que esse seja o caso; eu gosto dele e, não o amo de paixão como a fulaninha.

Eu geralmente não explodo com facilidade, mas ser tratado como qualquer um não dava pra mim. Eu simplesmente me enfureci. Jacoh estava passando por mim e nem me olhou. Fez aquela cara de nojo e subiu as escadas. Subi logo atrás.

Tomei banho e fui dormir, já era tarde e amanhã tinha aula. Não tive nenhum sonho aquela noite.

O relógio tocou o suficiente para acordar-me e, o resto da casa também. Fui ao banheiro e pude ver um olhar de fúria verde fechando a porta do banheiro. Jacoh, de quem mais seria?

Bom, logo depois tomei uma ducha e coloquei o uniforme. Desci para um super café da manhã, mas não deu tempo para me deliciar com tudo o que foi oferecido pela dona Anna. Entrei no ônibus e sentei-me ao lado de Coraline (o ônibus passava antes na casa dela, então…).

Tivemos as aulas de sempre, matemática, historia Inglês… Escutei poucas e boas de Flies sobre Summer, Tanaka falou saco sobre tecnologia, musica e sei lá mais o que. Ainda bem que deu a hora do almoço e logo em seguida, depois da eternidade que durou a aula dupla do professor Eros (sabe o gostosão que desperta calores nos alunos e leciona literatura?), fui embora para casa.

Fiz o de costume, troquei de roupa (coloquei um Short e uma regata), desci para jantar e passei um tempo com Olly. O diferente foi que Jacoh ficou conosco na sala.

Quando passei perto da escada, o ambiente estava morno e, quanto toquei o corrimão, de ferro, estava quente.

Acabei de subir as escadas e deitei-me.

Em minha cama pensei: meu dia foi muito chato, acho que é por causa de Summer. Ele faz o meu dia mais feliz (Ops!), digo, não como Flies, uma perdida apaixonada por ele, mas como um amigo, um companheiro… Sei lá.

Acabei adormecendo.

No dia seguinte, como de costume dos vivos, levantei de minha cama e coloquei meu “lindo” uniforme.

Saí correndo, pois eu estava de certa forma um pouquinho atrasado, acordei dez minutos depois do horário previsto pelo meu despertador.

Entrei no ônibus escolar e percebi que o dia não estava n  tão quente como a dois dias atrás. Estava agradável, tipo uns… Se lá, num chute, creio que uns 26ºC.

Cheguei à escola e assisti a uma incrível aula de biologia. A professora Blazeness estava linda como sempre. Ela discutia um assunto complementar a aula de genética, muito boa por sinal.

Depois do intervalo, tivemos aula de História, e o mais incrível foi que Summer estava presente. Fiquei pasmo com a presença dele (ou seria furioso?).

– Oi… – disse Summer baixinho. Tentei ignorá-lo, mas… Só acenei com a cabeça. Sentei-me ao seu lado.

O Alérgico a temperatura entrelaçava uma caneta entre os dedos durante a aula e prestava atenção nas palavras do professor. Flies fazia a mesma coisa, mas prestava atenção em Summer, nunca vi uma pessoa tão redondamente apaixonada que nem ela.

Olhei para meu irmão por um instante e pude notar que seus olhos ainda estavam alaranjados e sua pele ainda tinha resquício da escamação. Tive pena de Summer.

– Presta atenção Luidge! – disse Tanaka ao pé da minha orelha. Fiz sinal de positivo.

Finalmente a aula acabou. Juntei minhas coisas o mais rápido possível, não queria encarar Summer tão cedo. Enquanto saia, senti uma mão quente e robusta me segurando.

– Espera Luidge, precisamos conversar… – O ensolarado havia me agarrado.

– Eu não tenho nada para falar com você.

– AH, tem sim!

– Não, não tenho!

– Vem logo!

Enquanto me arrastava pelo corredor, pude ver olhos prestando atenção na ceninha que estava ocorrendo. Flies tentou fazer algo, para me acudir, mas… Summer o ser mais educado do planeta a afastou bruscamente com suas palavras. Foi algo do tipo… “Agora não Coraline!”.

Ele me pressionou sobre os armários do corredor, perto do banheiro e dos bebedouros. Pude sentir sua respiração angustiada e ansiosa.

– Desculpa… – disse quase num sussurro.

– O que?

– Me desculpa Luidge…

– Pelo o que? Você não fez nada de errado… – disse ironicamente.

– Não se faça de desentendido.

– Aff. – bufei – Te desculpo. Posso ir?

– Ainda não acabou. – eu pensei que seria só isso, mas parecia que havia mais da parte dele a ser falado.

– o que mais você quer me dizer? – joguei super verde, bem na cara; sabe? De modo a instigá-lo.

– É sobre a minha alergia, sobre as suas dores de cabeça… – Sobre o que Summer estava falando? O que minhas enxaquecas tinham haver com a alergia dele? O que estavam me escondendo? Queria saber mais e esse seria o momento.

– O que tem?

– É… Eu não deveria falar nada, mas…  – Summer só enrolava, nunca era direto nos assuntos.

– Fala logo! – perdi a paciência.

Nisso, Jacoh apareceu. Summer deixou de ser turbulento e se foi. É ele foi embora e me deixou falando sozinho. O garoto emo olhou em meus olhos por uns instantes, jogou a franja gigantesca dele e também se foi como sempre fazia.

Bom, fiquei sem saber de nada, mas não parecia ser o fim do mundo.

Bateu o sinal da última aula. Fomos pra casa.

Jantamos, tomei um banho e fui pra cama. Tentei falar com Summer sobre o ocorrido, mas nem dei tanta importância.

Nessa noite sonhei com Jacoh. Mas ele estava diferente do normal dele. Estava sorrindo, mas não era um sorriso de alegria em me ver, era um sorriso de psicopata. Sua franja caia sobre um dos olhos.

O olho que dava pra ver, não tinha a coloração verde de sempre. Era mais vermelho.

Jacoh avançava em minha direção. Tentava fugir, mas não conseguia. O garoto psicótico colocou a mão gélida em meu rosto e aproximou-se. Pude sentir seu hálito em minha boca. Era quente. Muito quente.

Acordei. Summer havia me tocado. Era hora de levantar para ir à aula.

A semana fluiu bem, sem muitas expectativas.

Summer foi viajar nesse fim de semana, junto com Anna e Ollivia. Eu não quis ir, pois havia uns trabalhos para fazer. Curiosamente Jacoh também.

Minha sorte foi saber que o senhor Watson iria ficar conosco. Ai se algo acontecesse havia alguém para me salvar.

CAP.04

4. OLLIVIA WATSON


Uma semana se passou depois do ocorrido que causou pânico em meus novos familiares.

Logo pela manhã, fui direto ao banheiro me arrumar para as atividades escolares. Desci as escadas e meus irmãos já estavam tomando o café da manhã. Minha mãe estava sempre com um belo sorriso no rosto, mesmo fazendo ovos, ela era impecável em simpatia e alegria. Meu novo pai estava em sua poltrona preferida lendo seu jornal matinal, enquanto tomava uma xícara de chá. O cheiro era inconfundível. Erva cidreira.

O ônibus chegou sem atraso, como sempre. Tivemos nossas aulas como sempre. O professor Sweetlovie estava atraente como sempre. Até mesmo os garotos da sala olhavam-no com olhos famintos; eu não era o único. Flies, a namoradinha secreta de Summer, continuava triste pela bota que havia levado; mas não perdeu a esperança. Foi o que ela me disse num dos intervalos de aula.

Assim que voltamos para casa, no final do dia, Ollivia quis que eu ficasse com ela o resto do dia, ou seja, até o horário dela ir para cama. Eu não resisti e cedi aos seus encantos de criança.

Ela me arrastou até o quarto dela. Eu, nunca havia entrado antes. As paredes eram de um tom rosado, tipicamente feminino, e todas as quatro paredes tinham texturas circulares. Ao longo da janela se estendia uma cortina rosa intenso, cheia de babadinho. A cama dela dava duas da minha. Era enorme, e o colchão incrivelmente fofo. Havia prateleiras cheias de ursinhos e bonecas. Um armário embutido no canto direito do quarto e uma mesa de chá no centro dele. O chão era coberto de um carpete creme, igual o sorvete.

– Vem Lu! Não fica parado. – disse a angelical menina. Avancei para explorar o resto das particularidades de seu majestoso quarto. No canto rente a porta, existia uma gigantesca caixa de brinquedos e montanhas de lápis de cor. As paredes desse canto eram totalmente decoradas com desenhos de Olly. Enquanto ela me arrastava até a mesa de chá, a garotinha exclamou:

– Gostou do meu quarto?

– Gostei.

– Vamos desenhar de novo? – balanceia cabeça e disse que sim. Olivia encheu-se de alegria e foi correndo pegar os lápis e os papéis.

A pequena menina, quando fazia cara de quem estava muito ocupada, parecia muito com seu pai; séria, concentrada em cada traço, fiscalizando-se para não errar. A luz do crepuscular do dia enchia o quarto de uma luz dourada, que refletia nos cabelos de Ollivia de um jeito tal que fazia a garota se transformar num anjo, totalmente iluminada pela luz. Enquanto desenhávamos, Olly espiava meu desenho, justamente para copiá-lo; eu não ligava muito para isso, o meu ia ficar muito melhor mesmo, mas eu ia mentir e dizer que o dela ficou mil vezes melhor. Ficamos em silencio durante uns vinte minutos. Felizmente eu quebrei o silencio e perguntei a garota:

– O que você está desenhando?

– Um cavalo correndo nos campos de morango.

– Nossa! – exclamei, quanta imaginação ela tinha. O meu era só um cavalo trotando pela colina, mas o desenho dela era super de menininha e muito criativo também. – Ta ficando muito bom Olly. Parabéns.

Ela riu como sininhos ao vento e voltou suas atenções para sua obra de arte. Eu ainda não tinha acabado de conversar com ela.

– Me conta Ollivia… Qual irmão você mais gosta?

Olly olhou para mim e respondeu sem enrrolação – Você. – eu dei uma gargalhada alta e disse que eu não contava como um dos irmãos. Ela fez um beiçinho, e começou a pensar. Enquanto deliberava qual dos irmãos era seu preferido, a garotinha dos cabelos de ouro coloria seu desenho. Ela pintava os morangos com um lápis de cor vermelho. Sua mão segurava, ou melhor, envolvia o lápis colorido, de forma que ficasse seguro e firme para a pintura; com seus movimentos de vai e vem, rapidamente pintava as frutinhas de vermelho. A pintura não ficou lá grandes coisas, mas dava para ver que as crianças de sua idade não bateriam aquela pintura.

– Jacoh. – disse a menina subitamente no meio de sua pintura. Ergui as sobrancelhas surpreso; pois esperava que ela dissesse Summer. Fiz uma cara muito de bobo e, lhe perguntei o porquê da escolha.

– Nossa! Pensei que você ia dizer Summer! – Ela me olhou de canto e voltou sua atenção ao papel. – Me conta o motivo dele ser seu preferido depois de mim? – dei um sorriso de convencido. Olly ainda desenhando respondeu com firmeza e determinação.

– Ele é legal.

– Esse é o motivo? Ele é legal?

– É. Ele é legal.

– Deve ter algo mais do que só legal? – a menina dos cabelos dourados deixou de colorir seu lindo e precioso desenho e, me encarou com um olhar de criança querendo defender seus ideais ou algo assim. Naquele momento eu realmente senti um arrepio subir pela minha espinha. A tranqüilidade que outrora era passada por ela, sumira de repente e me vi diante de outra criança; uma Ollivia nunca vista antes.

– Olha senhor Luidge… – sua voz subiu um tom e meio e parecia um pouco exaltada. Ela voltou a me chamar de senhor Luidge; isso não era um bom sinal. – Meu irmão Jacoh é muito bom comigo. – Comigo ele não era nem um pouco, pensei comigo mesmo. Tentei responder, mas não consegui. A pressão que sentia era tamanha que só pude continuar ouvindo. – Quando eu estou com ele, muitas coisas legais acontecem.

Depois de seu “longo” discurso sobre como ela se sentia com Jacoh, a força que me deixava arrepiado se foi e pude falar.

– Perdão Ollivia, não queria ser grosso com você. – disse de coração. Olly continuou olhando para mim com os olhos cheios de lagrimas e fez um beicinho tremulo. A menina angelical começou a chorar torrencialmente e eu, novamente, não sabia o motivo. – O que foi agora Olly? Foi alguma coisa que eu disse? – estava realmente desesperado. A menina começou a chorar do nada. Era realmente uma coisa inacreditável, apesar dela ter lá seus oito anos. As grandes gotas de água salgada de seus olhos encharcavam seu lindo desenho. Tentei acalmá-la de outro jeito. Sentei-me ao lado dela. Abracei-a, como um pai ou um parente próximo. Creio que talvez como um irmão. Acariciei seu cabelo comprido e dourado como a luz do Sol e, massageei suas costas com tapinhas leves. Para finalizar cantarolei a canção de ninar tema do filme “O Labirinto do Fauno”. Sempre dava certo com meu irmão, quando ele era menor; não custava tentar com Olly. Um minuto depois, Ollivia havia acalmado sua respiração e seu choro frenético tornou-se escasso. Ela me abraçou. Um abraço apertado e caloroso. Senti paz e uma extrema calma me encher por completo.

– Te amo Lu… – Olly realmente era muito boa com palavras. Dava para sentir exatamente o que ela sentia; como se nós fossemos uma pessoa só e, posso afirmar que o amor que ela expressava não era romântico; era fraternal, como se nós fossemos realmente ligados por sangue. Comecei a chorar juntamente com ela. Uma tortura, pois eu realmente gosto de guardar o que sinto para mim, mas guando a caixa de pandora era aberta, não havia ninguém que podia parar-me.

Olly olhou para mim. Seu rosto estava vermelho de tanto chorar e seus olhos tornaram-se amarelos, pois suas lagrimas lavaram seus olhos avivando sua coloração.

– Não chora Lu… – instantaneamente Olly começou a cantarolar a canção de ninar que eu cantara agora a pouco. Realmente dava certo. Tranqüilizei-me e dei um abraço apertado em minha irmãzinha.

– Ai, ai… – suspirei – Você aprende rápido mesmo né?! Estou muito surpreso. – Olly riu e eu a enchi de cócegas. Sua risada era mágica, muito contagiante. Recompomos-nos e voltamos a desenhar. Infelizmente o desenho da angelical estava todo molhado. Porem eu, como bom irmão, dei o meu para ela. Dessa vez ela continuou meu desenho e tentou me desenhar encima do cavalo. Não ficou bom, mas admito que minha caricatura ficou muito divertida.

Eu ainda estava querendo saber por que ela havia chorado daquele jeito e atrevi-me a lhe perguntar.

– Então amor – só mais um novo apelido – porque você entrou em prantos? – Ollivia me olhou com uma carinha de dúvida.

– O que é prantos? – havia esquecido que ela só tinha oito anos, não era letrada.

– Prantos é a mesma coisa que chorar muito – finalmente ela entendeu, mas não me respondeu de imediato. Ficamos um bom tempo em silencio. Nesse tempo, dava para escutar o som do grafite colorido lixar a folha de papel para tornar o desenho em cores. A brisa da noite entrava pelo seu quarto. Estava ficando gelado. Levantei-me e fui fechar as janelas, antes que a menina ficasse doente.

Voltei devagar até a mesinha onde estávamos desenhando, só para garantir que ela terminasse de pensar para me responder. Sentei-me do seu lado novamente. Peguei outra folha e recomecei meu desenho. Peguei um lápis 2B e comecei a rascunhar.

Meu lápis dançava sobre a folha branca, tornando os brutos traços em forma humana; um corpo suave e cheio de curvas, um corpo feminino. Adorava desenhar animais e mulheres; sabe? Coisas que eu gosto.

Ollivia deu uma suspirada profunda.

– Você está com fome? – já fazia um bom tempo que estávamos ali, não custava perguntar.

– Um pouquinho…

– Hum… Quer que eu busque uns cookies com leite? – a menina que cheirava flores teve seu rosto reluzido e rapidamente assentiu – já volto! Vou buscar um montão! – Olly riu-se.

Saí correndo do quarto, desci como nunca as escadas e cheguei ofegante à cozinha. Jacoh estava lá. Entrei quieto para não o assustar, mas não teve outro jeito. O garoto semi-gótico fez a mesma expressão de sempre, como se eu o enojasse, e foi embora. Eu realmente não sabia como uma menina, ou melhor, como uma família tão simpática e cheia de amor poderia ter um filho igual ao Jacoh, era realmente impressionante. Eu me mordia de raiva para não falar alguma coisa que não devia. Ele realmente era insuportável.

Bom, fora o encontro desastroso com o menino que não gostava de mim com todas as suas forças, deu tudo certo. Peguei os cookies e um copo de leite grande e subi.

Ollivia estava linda como sempre desenhando, em japonês existe uma gíria para coisas fofinhas ou sexy tradicional como no caso de empregadas, princesas, coisas com orelhinha, entre outras coisas. Ollivia era fofinha logo, moe, a tal gíria. Eu sabia disso porque eu tinha um quarto irmão, quase da minha idade e que gosta muito de coisas do Japão.

A garotinha sentiu o cheiro das gotas de chocolate, do leite e voltou-se direto para mim, ou, para a bandeja. Coloquei do lado dela e diretamente sua mãozinha pegou dois ou três cookies; fiquei admirado de ver como ela realmente gostava daqueles biscoitinhos.

Enquanto os devorava alegremente, ousei em lhe perguntar, ou relembrar a pergunta.

– Então Ollivia, por que você chorou?

Minha irmãzinha fungou.

– É que… – interrompeu-se – É que seu coração é bom Lu…

– Como?! – como assim meu coração é bom? Como ela podia saber disso?

– Eu já disse! – Ollivia estava carrancuda novamente, era o sinal para parar e curtir o resto da noite.

Bom, mais duvidas surgiram. Duvida numero um: Jacoh me odiava e eu não sabia o motivo; duvida numero dois: Ollivia, por incrível que pareça, fez uma leitura de meus sentimentos e eu não sabia como; duvida numero três: Summer não pode namorar sua amiga, por motivos que eu não sei. As únicas certezas eram: Meus pais adotivos eram legais e cheios de amor. Com isso bastava a aventura.

Ollivia já bocejava e coçava os olhos quando paramos de desenhar. Coloquei-a na cama e cantei-lhe a canção de ninar do filme. Meu anjo rapidamente dormiu. Fiz um carinho rápido e lhe dei um beijo na bochecha; sua pele era quentinha e cheirosa. Antes de sair, ascendi à luz do abajur.

Ao sair, acabei trombando com alguém que carregava um liquido quente.

– RETARDADO! – praguejava Jacoh – Olha por onde anda!

– Desculpa…

– NÃO HÁ PERDÃO! Por que você não volta pra sua terrinha?! – ele parecia muito exaltado, mas não podia responder a altura

– Eu não posso agora, tenho que aprimorar meu inglês… – foi o que consegui retrucar

– IDIOTA! Agora vou ter que fazer outro chá!

– Eu te ajudo. – me ofereci

– Eu sei fazer sozinho, não preciso da ajuda de suas mãos sujas. – era a primeira vez que vira Jacoh falar tanto e com muita fúria em cada palavra.

Nesse momento Summer abriu a aporta do quarto.

– Jacoh para com isso! – advertiu Summer

– EU NÃO VOU PARAR!

– Está tudo bem Summer – eu disse

Enquanto eles continuavam a trocar insultos, um em minha defesa e outro contra mim em todos os sentidos. Ouvi passos subindo as escadas. Subitamente o senhor Watson surgiu.

– Chega! – disse calmamente

– É culpa dele! – Jacoh apontou pra mim

– Eu não quero mais saber. Se vocês não pararem com isso. Vou colocá-lo no seu quarto. – Jacoh pareceu horrorizado e logo se aquietou. Olhou pra mim furiosamente com seus olhos verdes e desceu as escadas para preparar outra xícara de chá.

– Quero que você ajude seu irmão a limpar essa bagunça. – Summer assentiu e foi lá em baixo pegar um pano. Meu novo pai desceu também.

Eu e meu irmão com cheiro de praia limpamos o corredor e fomos para o quarto.

Contei para Summer o quanto Jacoh era dramático e contei só um pouquinho de como me sentia, era péssimo para falar de mim mesmo. O quarto estava um pouco abafado e pedi para que meu irmão de olhos mistos abrisse a janela. O efeito foi instantâneo. A brisa levou embora todo o ar quente do quarto e me senti muito melhor. Troquei de roupa, por uma mais confortável para dormir. Summer se deitava de cueca, sempre. Odiava ficar de roupa em casa, mas apesar disso ele era bem educadinho e ficava só com roupa de baixo para dormir o resto do dia ele seguia as regras da humanidade. Ele logo dormiu.

Naquela noite tive novamente um sonho louco.

Eu estava na mesma cidade, novamente eu não estava sozinho, o garoto ensolarado pairava nas alturas, fazendo com que eu me distraísse e não ligasse para as vozes. Ao meu lado havia uma garota com enormes asas brancas com pontas rosadas. Ela estendeu a mão e tocou meu peito. Senti uma enorme paz e tranqüilidade. A garota estava com venda nos olhos, mas seus cabelos eram dourados, quase como fios de puro ouro. Ela baixou minha cabeça e me beijou nos lábios. Na mesma hora ela tirava de minha boca outros lábios que não os meus. Ela beijou minha sombra, e as mãos da sombra sorriam malignamente.

A garota estendeu as asas entre mim e a sombra viva.

O garoto de trevas transformou-se em outra silhueta, bem maior e com asas de pássaro, carregava uma foi foice diferente, não sabia se era realmente uma foice ou outra coisa. A sombra investiu. Acordei.

 

CAP.00

PREFACIO

Eu sou tudo o que o mundo não busca, mas também sou tudo o que ele tem.

Eu sou a ruina das vidas, a perda de algo querido e o principio de toda auto destruição.

Sei que me conhece muito bem, pois estou sempre ao seu lado, mas mesmo não precisando me apresentar, eu lhe darei uma luz, apesar de não gostar muito dela…

Bom, eu sou o irmão da alegria, aquilo que você tanto persegue,  e da raiva, aquele sentimento que te domina quando nada sai como o esperado.  Tenho um nome proprio, divino, mas prefiro meu apelido, tristeza. Eu disse que já era um conhecido seu.

Nem sempre eu existi. Tenho um pai e uma mãe, do mesmo jeito que você.  A única diferença é que eu sou divino e faço o que eu bem entender com sua mera vida humana.

Isso é só um prefacio, um momento de reflexão e um pouquinho do que virá.

CAP.03

3. TITÃS

– Finalmente você acordou – ouvi uma voz ecoar em meus ouvidos – demorou, mas você conseguiu. – conclui que a voz parecia ser do Senhor Watson.

Abri meus olhos e vi que não era só ele, mas também a senhora Anna, Summer, por incrível que pareça Jacoh e Olly. Eu estava no quarto de casa mesmo. Havia o café da manhã ao meu lado; uma bandeja com torradas cheias de geléia e manteiga derretida, um copo grande de suco de laranja, cereal com leite, e outras coisas como bolo e frutas.

– Se sente bem querido? – disse minha nova mãe como se eu ainda estivesse prestes a sucumbir de dor de cabeça novamente. Assenti suavemente, mas ao mesmo tempo confiante para lhe assegurar que eu realmente estava passando bem.

– Vem querida, vamos deixá-lo descansar mais um pouco. Summer você vai ficar com ele hoje e o resto de vocês vai para escola, certo?

O senhor e a senhora Watson saíram do quarto chamando a pequena Ollivia junto. Ela me deu um tchauzinho simpático e um sorriso caloroso que me fez ganhar o dia como sempre fazia e foi-se com seus pais. Jacoh me olhou de canto, fez um sinal de positivo e também se foi. Ficou eu, meu super café da manhã e meu amigo e irmão Summer.

Comecei a comer um pedaço de bolo mármore tipicamente inglês, estava uma delícia, enquanto Summer me olhava e analisava com um quê de como-ele-sobreviveu. Eu achei muito estranho e lhe perguntei com uma cara de poucos amigos:

– O que foi?

– Hum… Nada não… – respondeu-me com um ar de quero muito lhe perguntar algo, mas não sei se realmente importa. Finalmente ele semicerrou os olhos, fitou-me profundamente e perguntou.

– Você não se lembra de nada?

Juntei os lábios com meia força, fiz um bico de lado com um combo de olhos expressando duvida e tentando meio que se lembrar de alguma coisa das ultimas horas ou dias – Não me lembro de nada não… – dei uma pausa breve – Hum… Fiquei dormindo por…?

– Ah! – interrompeu-me – de ontem pra hoje. Não foi muito tempo…

Ele parecia que ia continuar, mas parou no processo. Também não iria adiantar nada me perguntar alguma coisa já que eu não se lembrava de nada mesmo. Olhei para cômoda e lá se encontrava um pedaço de papel todo pintado. Peguei-o e vi que era um dos vários desenhos que Olly estava pintando; nele havia um homenzinho no centro e umas coisas flutuando em volta, não sabia que a princesinha gostasse de desenhar coisas assim, geralmente meninas gostam de pintar casinhas e a família, coisas desse tipo.

– Me deixaeu ver? – perguntou Summer estendendo a mão para pegar o desenho de mim. Entreguei-o. Ele analisou limpando a garganta num tempo suficiente de eu dar um gole no suco de laranja. – Sabe Luidge… – continuou ele meio vago nas idéias deixando o desenho de lado – estive pensando comigo mesmo… – ele olhou para de baixo da cama como se evitasse me olhar diretamente, ele deu uma corada de leve e voltou a falar algo – Acho que seria bom se nós, hum… Como posso dizer… Aprofundássemos nossa relação.

Fiz uma careta um tanto indiscreta pra ele. A proposta dele soara um pouco estranha demais para meu gosto e creio que ele percebeu o sentido em que eu tinha entendido e tentou reformular a proposta.

– Me deixa explicar direito… – começou – já que seremos irmãos durante sei lá quanto tempo. Creio que seria bom se nossa amizade ganhasse força. Só isso. O que me diz?

Peguei uma torrada embebida em geléia e manteiga e dei uma dentada. Assenti com a cabeça de leve.

– Eu gosto de verde. – afirmei. Summer entendeu o que eu fizera e um sorriso caloroso brotou de seus lábios.

– Eu prefiro laranja e não gosto muito de ler.

– Gosto muito de ler o que acho interessante. Principalmente se for temas relacionados à mitologia grega.

– Essa é a única coisa que gosto de ler – corrigiu-se – Principalmente sobre os poderosos Titãs.

– São muito legais mesmo – encorajei – você sabe o nome de todos? – perguntei algo que eu sabia, pois havia estudado aparte por curiosidade.

– Só sei Cronos, Rheia, Oceano e Hyperion.

– Hum… São doze na verdade. Cada um extremamente poderoso, logo que os Titãs representam a força bruta da natureza.

Summer me olhou como se estivesse realmente prestando muita atenção; já o vira assim e posso afirmar que ele estava muito mais concentrado em minhas palavras sobre os Titãs do que na aula de História.

– E ai me conta como é ser o filho mais velho?

– Não é lá grande coisa… – respondeu ele dando de ombros e desabando em sua cama – conta mais sobre os Titãs. Fiquei curioso.

Mitologia grega não era lá muito divertida de se falar, principalmente com Summer que era todo atlético e inteligente.

– É sério mesmo? – perguntei boquiaberto

– É. Continua. – insistiu.

– O.k. – dei mais um gole no maravilhoso suco de laranja e peguei um bolo para me acompanhar na jornada de vida dos Titãs. – hum… É o seguinte: os Titãs são filhos do Céu com a Terra, ou seja, gigantes dotados de ilimitado poder. – Summer assentiu com a cabeça, me dizendo que estava me acompanhando. – Eles, os Titãs, lutaram contra seu pai Uranos para livra a mãe Terra Gaia da escravidão sexual que ele havia estabelecido…

– Agora você pegou pesado não foi? – disse-me o garoto ensolarado perplexo com o que eu acabara de dizer.

– O que foi que eu disse?

– “Escravidão sexual” – ele fez uma imitação tosca de minha voz – Essa parte você inventou, confessa!

– O.k. eu gosto de ver as coisas de um angulo diferente só isso, mas não mudei o conto por causa disso. – defendi minha posição. Summer balançou a cabeça dizendo-me que continuasse. – Hum… Se você não me interromper.

– Está bem, eu não falo mais nada.

– Continuando. Cronos cortou a pênis de seu pai e o atirou pra bem longe e separou o céu da Terra. Neste momento Urano amaldiçoou Cronos dizendo que o filho dele iria destroná-lo. – respirei um pouco para pensar. Summer olhava para parede enquanto sua cabeça pousava em seus braços cruzados e seus pés balançavam. Continuei – Ai, Cronos casou-se com sua irmã Rheia. Porem ele ficou com tanto medo da profecia que comeu todos os filhos que teve com sua esposa menos um que foi Zeus, esse o destronou e tornou-se rei dos deuses e deu inicio a “titanomaquia” a guerra entre Titãs e deuses olimpianos. Fim.

Summer olhou pra mim com seus olhos azuis tingidos de pigmentos alaranjados. Eles me olhavam profundamente querendo mais de minhas informações, desejando que eu lhes contasse algo realmente importante que eu não dissera ainda. Eu particularmente já havia dito tudo. Tentei vasculhar minha mente para ver se havia realmente algo que faltava, mas nada achei. Summer levantou-se despreocupadamente, espreguiçou-se levantando os braços para o ar.

– Hum… Você não me disse os nomes deles ainda…

Era algo que eu havia esquecido como pude esquecer algo tão simples. – Ixi! Esqueci! Desculpa!

– Tudo bem, ainda não acabou o dia, temos a manhã toda e a tarde, talvez noite.

– Pois é né… – suspirei – então, como prometi, o nome dos doze Titãs são… – tomei um gole de chá de menta com chocolate, uma delicia por sinal – Cronos, Hyperion, Iapetus, Koios, Crios, Oceano, Rheia, Theia, Mnemosyne, Phoibe, Themis e Tethys.

Summer me olhou com uma cara maravilhada com minha lista de nomes fantásticos dos Titãs e Titânides que ele não conhecia.

– E… – começou a comentar – Eles representam quais forças brutas da natureza? –  pensei que íamos falar sobre outra coisa agora. Já havia falado tudo o que realmente era importante, mas o ensolarado sempre queria mais e obviamente eu tinha em minhas mãos as respostas que ele queria, logo, eu respondi.

– Cronos o senhor do tempo, sua esposa Rheia a maternidade pura. Hyperion é aquele que tem o poder de determinar os dias, ele é o Sol primitivo, o crepúsculo, o horizonte e sua esposa Theia o vasto céu azul. – Summer boquiaberto pelas informações que eu lhe dava pedia por mais em suas intenções – Oceano representa às poderosas correntes marinhas dos oceanos e sua esposa irmã, Tethys, a cura e a fertilidade aquática. Koios é a pura inteligência, sabedoria e é o pilar do paraíso e sua mulher Phoibe representa brilhantes idéias além de ser o oráculo dos Titãs. Crios representa as forças da liderança e tem o poder de formar ou destruir constelações. O Titã estelar, Iapetus é a mortalidade, a destruição de toda raça humana. Mnemosyne tem o poder de armazenar memórias e recordações, tanto de pessoas como de civilizações inteiras e por ultimo, mas não menos importante Themis, a justiça plena e sem rococós.

Summer admirado soltou um suspiro que claramente dizia: Você é muito bom nesse negócio de mitologia. O Sol iluminava o quarto e o garoto a minha frente resplandecia como Apolo. Coraline tinha razão, não queria admitir, mas meu irmão é muito bonito mesmo.

– Deixa eu te perguntar… – disse Summer especulando coisas – E, se os deuses realmente existissem?

– Isso foi uma pergunta? – não tinha cara de pergunta, parecia mais uma afirmação doida sobre o assunto fantástico mitológico, uma loucura só.

– É. Isso foi uma pergunta. – respondeu o ensolarado com os olhos semicerrados.

– Hum… Sei lá. Creio que ia ser muito legal. E você o que acha de tudo isso?

– Também acharia muito bom se realmente existissem.

– Mais alguma coisa? – Ele estava com uma carinha de que queria acrescentar mais alguma coisa naquele papo louco que estávamos tendo.

– E se… – começou – os deuses fossem… Tipo uma espécie de pessoas com poderes, como os X-men?

– Nossa que loucura. Você acha mesmo?!

– Não sei. Quero sua opinião.

Summer era muito doido mesmo, olha o que ele me perguntou. Cocei a cabeça, o queixo, pisquei desengonçadamente revirei os olhos e ele lá, esperando que eu o respondesse. Eu sabia que talvez fosse possível, mas… Eu arisquei e falei para ele algo muito importante.

– É o seguinte, não quero que você fale para ninguém o.k.?! – Summer assentiu e se aproximou de mim sentando ao pé da minha cama – É o seguinte, aquela dor de cabeça que eu tive ontem; já tive antes, mas foi um pouco diferente. Da outra vez que fiquei assim, eu escutei vozes, como se todo o planta estivesse conectado a mim. Ai eu entrei em coma por um mês. Meus pais ficaram abalados e temeram por minha segurança. Acho que eu sou um pouco diferente do considerável ser humano e, sim, eu acharia maravilhoso se os deuses fossem anomalias genéticas como os X-men.

Meu irmão estava me olhando seriamente e por um minuto eu achei que ele acreditasse em mim. Ele colocou a mão na boca e explodiu em gargalhada. Fiquei furioso.

– Como você é sem graça né! Nunca mais te conto nada.

Vê se pode um retardado rindo de mim. Ele que começou com o papo de deuses e mutantes, como se houvesse uma ligação muito próxima. Eu me abro com ele sobre minhas experiências e ele cai em gargalhada. “Nunca mais!” pensei comigo finalizando meu glorioso e longo café da manhã.

– Perdão. Não agüentei. Só perguntei por perguntar… hahahahaha! – desculpou-se e continuou a rir. Realmente ele era um retardado.

– Você poderia ter ido pra escola e me deixado em paz, seu cretino!

– Como você é mal.

Ficamos sérios por um instante, mas não consegui permanecer bravo com Summer e começamos a rir novamente. Era muito fácil me divertir com ele apesar de tudo. Enquanto Olly parecia meu irmãozinho, Summer lembrava minha irmã mais velha. Apesar de ela ser muitos anos mais velha que eu, sempre me faz rir de qualquer coisa, mesmo quando ela me deixa muito irritado, ela consegue extrair de mim uma risada sincera. Fiquei com saudades naquele momento.

Nós falamos horas a fio sobre diversas coisas, como por exemplo: Garotas. Descobri que alem dele ter uma paixão por Flies, ele gostava de garotas de olhos exóticos e de preferência com cabelos da cor dos de sua mãe. Perguntei sobre seus olhos e ele me explicou que ele muda de azul para laranja na claridade ou quando estão cheios de água, achei muito legal. Ele pratica esportes só porque seu pai gosta. Perguntei também sobre Jacoh e ele me disse que desde pequeno ele é assim fechado e com cara de poucos amigos. Ele também acrescentou que quando eram mais novos, eles viviam viajando pelo país; só agora que sossegaram. Conversa vai, conversa vem.

Summer voltou a deitar-se em sua cama. Era quase meio dia e o Sol começou a ficar mais forte e o quarto bem mais quente e o cheiro de praia e protetor solar voltaram a dominar o quarto. Nunca tinha ficado no quarto ao meio dia, e descobri que não ficaria mais, era insuportável. Sempre voltava quando o Sol já estava indo embora, logo não tinha como saber que o quarto parecia o inferno na terra. Levantei-me e fui ao banheiro. Estava muito apertado, depois de tanto suco de laranja e chá já era de se esperar que minha bexiga ficasse cheia.

Fui até o banheiro, esvaziei-me da urina que meus rins criaram e o som dela ao chegar à água do vazo sanitário me fez relaxar um pouco. Aproveitei que estava no banheiro e resolvi tomar um banho para refrescar, o quarto estava muito quente. Tirei minha roupa e a coloquei de canto, junto com as roupas sujas. Abri o box, alias o banheiro era muito grande comparado com o da minha casa. Abri o registro do chuveiro e deixei a água morna lavar-me. Enquanto era massageado pelas gordas e repetidas gotas de água, refletia sobre minha própria vida, e sobre o que Summer havia comentado, sobre deuses serem mutantes… Era duro de encarar, mas eu tinha de certa forma poderes especiais pelo menos é por isso que eu fugi de casa. Fugi para a proteção de minha família, tinha certeza do que eu era: um esquisitão completo e não iria por minha amada família nesse jogo. Peguei o sabonete, levei-o ao meu nariz e senti o aroma de chocolate vendo dele, era muito gostoso. Ensaboei-me devagar, lavando cada parte de meu corpo. Passei xampu nos meus cabelos, enxagüei e, deixei com que a água continuasse a cair por meu corpo por uns bons dez minutos. Desliguei o chuveiro lentamente. Logo senti a fumaça me cobrir e o ar quente me envolver. Peguei minha atoalha e sequei-me no box. Olhei no espelho, penteei o cabelo úmido, enrolei-me na toalha e sai do banheiro. A fumaça morna escapou junto comigo. Fui depressa para o quarto, pois não queria que a menina me visse de tolha, seria embaraçante tanto para mim quanto para ela. Ao chegar a meu quarto, senti uma onda forte de calor secar meu corpo. Minha toalha caiu e fiquei nu perante todo aquele mormaço que reinava. Percebi que Summer não estava em sua cama. Não dei muita atenção. Fui até a janela a fim de fechá-la, eu estava nu no quarto e não queria que algum vizinho bisbilhoteiro me visse dando sopa; o Sol estava muito quente. Vesti minha cueca preferida, uma vermelha, não sei se um cara pode ter uma cueca preferida, bom, eu tenho. Vesti um short, e uma camiseta branca, ótima para dissipar calor. Passei desodorante, daqueles aerossóis. Desci as escadas. Não achei meu irmão na sala e nem na cozinha. Minha nova mãe estava lá e Jacoh também. Ele tava tomando um suco, parecia uva, e Anna estava começando o almoço.

– já levantou? – disse mamãe – Ainda é cedo. Você já está melhor?

Balancei a cabeça positivamente.

– Hã…?! – me dirigindo à Jacoh – Você viu Summer?

Jacoh olhou pra mim com uma cara de não-fala-comigo, virou o suco goela abaixo e subiu para seu quarto.

– Eu pedi para ele ir ao mercado – disse-me Anna

– pensei que era pra ele ficar comigo – comecei – eu nem ia sair do quarto hoje, mas está muito quente, aqui em baixo é mais fresquinho.

Minha nova mãe balançou a cabeça positivamente enquanto cortava cenouras para uma salada.

– Daqui a pouco ele está de volta, não se preocupe querido.

– Tudo bem. Vou procura a Olly.

– Ela está na escola – ela olhou pra mim com uma cara de dó – vê um pouco de TV, aposto que lá no Brasil você assistia pra distração.

Assenti e aceitei o conselho. Fui pelo corredor até a sala de TV, onde havia sido o ocorrido. Era do que eu me lembrava; de uma dor de cabeça na sala de TV. Acomodei-me no sofá, ou seja, deitei-me e liguei o televisor. Coloquei num canal de cultura, exemplo: Discovery Channel e deixei-me guiar na programação. Acabei adormecendo.

Tive um sonho muito louco. Começou comigo no meio da cidade. Desta vez eu não estava sozinho havia um garoto ensolarado, não dava pra ver seu rosto, ele literalmente estava em chamas e passava muito bem abrigado. Comecei a sentir novamente uma dor de cabeça, mas logo percebi que o Sol pairava sobre minha cabeça e a futura dor que eu iria sentir em meu sonho repetido de certa forma se foi, pois eu estava tão distraído com o poder do Sol que me esqueci dela e das vozes de fundo. Olhei bem para aquele astro e percebi que o garoto de fogo estava no meio dele, e ele sorria. Estendeu-me a mão e eu acordei.

Summer estava me cutucando com suas mãos quentes quando despertei no sofá.

– Luidge! Vamos logo. O almoço está pronto! – dizia ele enquanto eu acordava. Dei um gemido, espreguicei e tentei falar alguma coisa que fazia sentido:

– Te procurei a manhã toda… Onde você estava?

Ele revirou os olhos e me respondeu – Eu tava no mercado comprando algumas coisas, agora levanta, você dormiu demais!

Levante-me com ajuda de Summer.

Ao chegarmos à cozinha, admirei uma mesa farta de comida. Havia um frango suculento bem no centro da mesa, decorado com alfaces, rodelas de tomate e cerejas, e tudo estava regado com uma calda especial. Havia uma salada de uvas verdes com presunto e maionese, parecia muito apetitosa. As cenouras que pensei que virariam salada tornaram-se um gigantesco suflê laranja. Os pratos estavam dispostos ao redor da enorme mesa retangular. Ollivia estava sorrindo pra mim e apontando para a cadeira ao lado dela. Fui e sentei-me onde ela pediu. O cheiro estava delicioso. À minha frente estava Jacoh com seu olhar enigmático cheios de mistério e indiferença. Ele de repente estava olhando para mim. Senti um calafrio e desviei os olhos rapidamente. Summer sentou-se ao lado dele. A senhora Watson estava na ponta entre mim e Jacoh. O senhor Watson na outra ponta. Oramos e degustamos do banquete.

CAP.02

ESCOLA

Logo pela manhã, de segunda-feira, devia ser umas sete horas, Summer me sacudiu clamado para que eu acordasse. Eu resmunguei alguma coisa do tipo mais cinco minutos e ele disse:

– Temos aula hoje Luidge, é seu primeiro dia, vamos logo!

Eu demorei um pouco pra assimilar as palavras que ele havia dito, mas quando consegui digerir tudo aquilo eu saltei da cama. Escola. Tinha que ir a escola.

– Não vim pronto pra ir a escola?!  – disse surpreso.

Summer olhou-me com uma cara de espertinho, revirou os olhos e disse:

– Minha mãe já fez tudo:  matrícula na mesma série que eu, pois você tem dezessete igual a mim né? – assenti com a cabeça. – comprou o material, mochila e… Hum… O que falta mesmo?

– O uniforme…? – dá vasta lista que ele fizera, só faltava o uniforme ou a metralhadora, logo fiquei com a opção mais valida.

– Isso mesmo!

Ele foi até o armário, e tirou um paletó descolado vermelho e azul com as iniciais da escola, uma camisa branca também com as inicias no peito direito, uma gravata listrada de azul e vermelho, a calça azul e os sapatos pretos com detalhes em vermelho. “Ual” pensei comigo mesmo, vou para um casamento.

– Veste logo, temos que tomar café logo também e pegar o ônibus logo, bem logo!

-O. K. O.k.

Vesti o “uniforme” rapidamente, deixei a gravata pendurada sobre a gola, vesti os sapatos correndo, peguei minha mala, que mais parecia uma pasta executiva do que uma mala de escola, e desci as escadas num salto dei bom dia a todos e segui Summer porta afora.

– Boa aula meninos! – desejou a senhora Anna para todos nós.

Entramos no ônibus escolar, nunca havia entrado num antes, era bem comum na verdade.

– Oi… – disse ao motorista sem esperar uma resposta.

Sentei-me ao lado de Summer. Todos no ônibus me olhavam com cara de “quem é esse ai?”, não liguei muito, mas me incomodava um pouco. A viagem até a escola foi muito calorenta, ou era o ônibus que estava abafado e realmente muito quente ou Summer realmente tinha um sistema de liberação de calor muito espantoso, ele nem sequer suou ali dentro.

Chegando ao destino, escola, saímos do ônibus como de costume. Foi uma correria só. Segui Summer até a sala de aula. Entrei juntamente com ele e me sentei ao seu lado.

– Bom dia caros alunos! – disse o professor-sei-lá-o-nome. Ele tinha um porte atlético, esbanjava juventude, tinha o cabelo bem negro, dentes bem brancos. Percebi que algumas de minhas colegas de classe olhavam pra ele derretidas de amor, acho que devia ser seus olhos verdes vibrantes ou seus lábios carnudos, dava até vontade de beijá-los, como seria o gosto de…

– Hum… Creio que temos um aluno novo nessa classe…

– Tem mesmo professor Eros… – disse Summer alto o suficiente para me tirar do esquisito transe quase sexual pelo professor Eros – Levanta Luidge, apresente-se.

Revirei os olhos, suspirei e criei coragem para me levantar e falar pelo menos meu nome.

– Meu nome é Luidge Cavallete Heatsun, aluno de intercâmbio. – nem doeu, pensei comigo mesmo. Pude ouvir uns murmurinhos sobre eu ser de outro lugar do planeta.

– Muito prazer Luidge. Chamo-me Eros Sweetlovie e vou lecionar Literatura não só pra você, mas pro resto da turma. – assenti e me sentei. – Mais uma coisa senhor Luidge. De onde você é?

– Brasil… – Fiquei meio vermelho de vergonha, pensei que ele fosse perguntar algo sobre literatura; não que eu não gostasse de ler. Eu geralmente lia o que me interessava como livros de mitologia.

O senhor Eros começou a falar, falar e falar sobre assuntos que eu nem sabia sobre o que se tratavam.

– Ele é bonito né? – suspirou uma garota que sentava do meu lado.

– Eu quero pra mim amiga. – respondeu a outra.

Deu o sinal da aula dele e eu dei um grito mudo de alegria, não agüentava mais aquela aula e aquelas meninas com hormônios explodindo de um lado pro outro. Summer me pegou pelo braço e me arrastou até a próxima aula.

– A gente não tem uns minutinhos até a próxima aula? – perguntei.

– Tem, mas não agora, a próxima aula é longe dessa sala, temos que nos apressar.

Corremos sem parar, demos a volta por não sei aonde e por um milagre chegamos até o destino do horário. O bom é que Summer já sabia onde ficava os lugares, havia muito tempo que ele estudava aqui não era de se estranhar.

Chegamos a tempo. Desta vez eu não sentei perto do menino ensolarado. Sentei-me perto de uma garota de cabelos castanhos, pois não havia outro lugar na sala.

– Oi… – disse a garota, com os olhos excitados esperando que eu respondesse alguma coisa pra ela.

– Hum… Oi?!

– Me chamo Coraline…

– Aposto que não é só Coraline – interrompi bruscamente sua apresentação.

– Como você é grosso, eu ia chegar lá. – disse-me ela num tom mais alto.

– Perdão não queria parecer rude…

– É Coraline Krausterflies senhor Luidge-grosso.

– Já pedi desculpa… – fiz um beicinho que não gostaria de ter feito.

– Está perdoado seu bobo – afirmou ela – então… – continuou, sabia que ia ser sobre minha nacionalidade – você é mesmo do Brasil né?

– Sim…

– Hum… E como é lá?

– É um lugar bem bonito, você deveria conhecer – incentivei-a com minha “sabias” palavras.

– É, deveria… Você não está sendo o guia de viajem adequado.

– Depois eu sou grosso né?!

Ela me mostrou uma careta e voltou suas atenções para a aula de biologia que rolava.

Reparando melhor na minha colega de sala, além de ter um cabelo castanho como chocolate ao leite, possuía também incríveis olhos expressivos de uma coloração impar, violetas como o daquela atriz Elizabeth Taylor, tinha pele clara como a neve, lábios rubros e uma voz inimaginável, parecia passarinhos cantado na aurora do dia.

– Luidge?! – gritou o professor chamando minha atenção. Logo parei de olhá-la e voltei aparentemente minhas atenções ao professor. Minha mente estava deixando-se levar pelo sentimento de paixão de meu coração. É isso o que acontece depois e uma aula de literatura com um professor que se chamava exatamente paixão, o senhor Eros. Deu o sinal.

Summer me chamou para irmos até a próxima aula.

– Deixa que eu o levo Summer, vai dar tudo certo! – gritou Coraline para meu irmão substituto.

– Mas… – ele tremeu em suas palavras – meu pai pediu que…

– Calma, vai dar tudo certo prometo, ele vai chegar a tempo. – Coraline conseguiu acalmá-lo e ele saiu pela porta correndo – ele é sempre assim… – concluiu ela.

Enquanto caminhávamos até a próxima sala de aula, íamos conversando.

– Está gostando de Londres?

– Estamos em Londres? – perguntei surpreso, pois pensei que era uma cidadezinha chique de interior que eu não recordava o nome.

– Pois é meu amigo estamos. Bem vindo a capital.

– Obrigado. – parecia um burro perto dela, acho que meu rosto dizia que eu estava envergonhado com a minha estupidez.

– Mudando de assunto… – propôs Coraline com um ar de duvida, não sabia o que ela queria saber sobre mim, ou seja, lá o que fosse. – Como é morar com Summer?

Era isso, a menina mais bonita da escola, até então, gostava de meu companheiro de quarto que cheirava como um dia de verão. Não sabia o que dizer a ela, eu mal o conhecia.

– Eu só estou lá a dois dias e meio – Coraline baixou a cabeça meio decepcionada – mas pelo que vi, ele é muito ansioso, agitado, um pouco curioso, emana simpatia…

– É lindo, forte, inteligente, tem um cabelo louro muito especial – continuou ela euforicamente completando minha lista com diversas outras coisas. Olhei perplexo pra ela tentando entender seus motivos – Desculpa. É que eu gosto dele já faz muito tempo, desde que tínhamos apenas 10 anos, quando o conheci. Eu faço de tudo e ele não percebe.

– Hum…

– Sei que você é novo e tudo mais, mas… – ela fez uma carinha tão gentil que não pude recusar a qualquer pergunta que ela faria naquele momento.

– Tá eu ajudo com o que você quer. – disse descaradamente e bem espontâneo querendo ajudar, fazer algo de bom para Summer afinal de contas. – vamos fazer o seguinte – comecei o plano – hoje depois da aula você deve falar com ele sobre o que você sente está bem?

Coraline demorou a responder, parecia que estava pensando em como falar isso a ele ou nem pensar que vou fazer isso.

– O.k. Hoje mesmo eu falo com ele. Obrigada por me encorajar.

– Não há de que.

Fomos até a próxima sala de aula. Chegamos um pouco atrasados, mas ainda no horário certo. Summer nos olhou com uma cara de quem dizia “eu te disse, essa menina é encrenca”, mas nada muito preocupante.

Após as aulas, Summer me pegou pelo braço e começou a me arrastar para fora da escola; foi quando Coraline Krausterflies apareceu diante de Summer.

– Onde você pensa que vai com tanta pressa, Watson?

– Pra casa, onde mais? – Retrucou meu novo irmão.

– Não vai mesmo. – Afirmou a menina de olhos violeta – temos que conversar.

– Não pode ser amanhã? – propôs

– Não. Tem que ser hoje.

– É que eu estou com Luidge, e…

– Ele pode esperar um pouco, não é Luidge? – interrompeu Coraline. Eu assenti devagar como se eu estivesse assustado com tudo aquilo, já sabia o que ia acontecer, só não sabia o resultado.

– O.K. Então… – concordou Summer – mas tem que ser rápido Flies. – era como um apelido carinhoso.

– Não vai demorar nem um minuto.

Coraline agarrou o braço dele e saíram andando até um lugar onde eu não podia escutar, mas podia ver e como eu era de certa forma sou bom de dedução, não era problema assisti-los.

Bom, ela colocou Summer contra uma coluna perto dos armários escolares.  E começou a falar algo como uma história de muito, muito tempo atrás, como uma dissertação antes da pergunta ou declaração final a respeito de seu “True Love”. Summer estava fazendo uma cara de senta-que-lá-vem-história que me deixou muito entediado também, não sabia ao certo sobre o que ela falava, mas pela cara dele não era um assunto muito bom.

Coraline, logo que acabou de falar sua longa história de vida, virou-se de costas para Summer, estendeu as suas mãos pra trás e perguntou alguma coisa como “eu gosto de você” ou algo bem próximo dessa realidade. Ela permaneceu de costas para ele. Summer pegou nas mãos dela, abaixou-se até posicionar sua boca próxima à orelha dela e  falou algumas verdades. Ele a deixou ali e veio em minha direção. Sua expressão não estava como de costume, alegre e ansioso como eu o vira sempre (Apenas dois dias e meio); estava sério, parecia bem mais velho que de costume.

Ele passou por mim secamente e disse:

– Vem. Vamos perder o ônibus.

Assenti devagar e o segui sem muito esforço de minha parte. Entrei no transporte escolar e sentei-me do lado dele. Desta vez o ambiente não estava tão quente e abafado como antes, estava fresquinho e confortável. Olhei pela janela e vi que já estava anoitecendo.

Chegamos em casa. Jacoh estava sentado na sala de jantar ouvindo musica e aparentemente fazendo seu dever de casa. Olly sorriu pra mim enquanto eu subia as escadas para guardar meu material escolar no quarto e trocar de roupa. Summer fez o mesmo.

Ele jogou seu material ao lado de sua cama, sentou-se na beirada e começou a desabotoar sua camisa branca lentamente, cabisbaixo e meio triste.

– Ufff… – Summer suspirou pesadamente.

– Você está bem Summer? – perguntei tentando não parecer tão preocupado e sim rotineiro, quando se pergunta as coisas sem muito interesse e sim por educação. Ele acabou de desabotoar a camisa, tirou-a devagar e seus músculos surgiram como um soco no meu olho. Coraline tinha razão ele era fortinho, diferente de mim que era um magricela sem muitos músculos acumulados. Ele olhou pela janela escura num olhar bem vago e me disse:

– Eu disse não. – Parecia que o Sol havia sumido da face da Terra naquele instante.

– Disse não para…? – rotineiro novamente.

– Deixa de ser tonto! Flies me contou tudo. – Summer desabafou de forma fervorosa e tranqüila. Fiquei surpreso, pois pensei que ia ficar fora da declaração de amor da garota.

– Desculpa… – abaixei minha cabeça e olhei para meu uniforme que estava dobrando e colocando sobre a cama. – hum… Não deveria me intrometer.

– Não. Tudo bem…

Esperei um pouco até a poeira abaixar um pouco.

– Porque você recusou? – arrisquei perguntar. Ele demorou um instante para me responder. Vacilando entre olhar para a janela e tirar a calça do complexo uniforme.

– Eu gosto dela desde a primeira vez que a vi – confessou – mas não posso fazer nada…

– Qual é o problema? – tentei me intrometer. Ele voltou-se para mim e seus olhos por um instante brilharam numa coloração alaranjada cheio de sentimentos profundamente tristes pela escolha feita naquela hora do dia, parecia que ele carregava um fardo sobre suas costas.

– Não posso te dizer também, é muito pessoal. – disse ele diretamente pra mim e voltou a olhar a escuridão da noite pela janela. Eu não queria forçá-lo a dizer nada a respeito de sua drástica escolha, mesmo porque eu também tinha algo a esconder, pelo menos eu achava que era preciso. Peguei meu caderno na mochila, tinha um monte de coisa pra estudar apesar de ser o meu primeiro dia de aula, tinha que tirar o atraso.

Ao sair do quarto encostei a porta e lá estava Ollivia a me olhar. Estava começando a me irritar. Toda hora essa menina ficava atrás de mim e me dava um grande susto.

– O que foi agora Olly? – perguntei um pouco rude.

– Nada não…

– Fala Ollivia, o que você quer? – perguntei de uma forma mais suave dessa vez.

– Hum… – ela pensou, enrolou uma mecha dourada de seu cabelo em seu dedo, olhou pra mim e disse – quer pintar comigo?

– Seu irmão Jacoh não pode brincar com você? – perguntei de cara sem muita enrrolação.

– Ele ta ocupado. Papai e mamãe também e Summer está triste… Só sobrou você.

Ela fez aquela carinha triste de criança, igual ao que meu irmãozinho fazia e não pude resistir.

– Está bem.

Deixei minhas tarefas de lado; não que não fosse preciso estudar, mas dava pra deixar pra outro dia.

Ollivia soltou uma risadinha de alegria, pegou minha mão, me levou até a sala de T.V. e começamos a desenhar e pintar. Enquanto pintava Olly cantarolava uma melodia muito infantil e ao mesmo tempo gostosa de ouvir. Alegrei-me pintando com ela, era como um anjo em minha vida; dava-me paz e me enchia de alegria. De repente comecei a sentir uma dor de cabeça não muito forte, mas que me incomodava.

– O senhor está bem?  – perguntou a menina num tom bem preocupada.

– Estou sim. – menti, mas não era totalmente uma mentira, realmente estava bem, nada muito preocupante. – o que você fez ai Olly?

– Um castelo nas nuvens. – novamente a menina de cabelos dourados como o Sol riu, me deixando em paz – E você Lu? – também ganhei um apelido.

– Eu estou fazendo um cavalo de fogo.

– Nossa que lindo! – exclamou a menina. Eu realmente era muito bom em desenho também – faz um pra mim depois?!

– faço sim. Faço tudo o que você desejar mocinha. – fiz cócegas nela e ela soltou uma gargalhada tipicamente de princesa, muito inocente.

Dez minutos depois, a dor de cabeça dobrou. Eu larguei o lápis na chão e massageei as têmporas devagar. A dor foi aumentando gradativamente, me deixando com muita tontura e ânsia, eu estava prestes a vomitar.

Soltei um gemido aterrorizante. Olly saiu correndo chamando os pais. A dor de cabeça continuou a latejar e massacrar meu cérebro, como se uma bomba tivesse explodido em minha cabeça e a população dela gritasse por socorro imediato. Eu fechei os olhos com força tentando esquecer a dor, mas ela crescia cada vez mais e mais, não sabia se ia aguentar por muito tempo. Lembrei-me de meu sonho e entrei em desespero. Coloquei a cabeça entre os joelhos e comecei a gemer. O senhor Watson desceu as escadas correndo.

– O que foi Luidge? Fala comigo? – exclamava. Eu respondia com gemidos fortes. Enrolei minhas mãos na cabeça apertando com força para ver se a dor se continha.

– Luidge! Filho! – a senhora Anna também estava lá perto de mim tentando me chamar de volta, mas a dor que eu sentia era tamanha que pude ver os lápis de cor da Ollivia rodarem a minha volta literalmente. Estava muito tonto e cheio de dor que não liguei para o que meu cérebro me fizesse perceber para tentar lutar contra essa força que emanava dentro de mim. As luzes começaram a piscar. Os móveis da sala de T.V. começaram a se afastar ou simplesmente tremerem. A pressão interna aumentava exponencialmente; eu não sabia se iria resistir por muito tempo. Talvez eu morresse ali mesmo. Comecei a pensar na minha família que estava longe de mim, pensei na dor que estava lhes causando, como eles ficariam quando soubessem que eu havia fugido e morrido. A dor me nocauteava aos poucos, e a cada pontada que massacrava meus neurônios, eu lentamente ia perdendo a consciência do que realmente estava acontecendo.

O senhor Watson me sacudiu. Pude ouvir Summer gritando meu nome e os olhos verdes de Jacoh na escada. A pequena Ollivia chorava no canto da sala.

Eu apaguei.

CAP.01

FUGINDO

Era dia cinco de maio quando tudo começou. Sai de casa pela alva, era noitinha ainda e estava meio frio, com aquele cheirinho de chuva. Acordei espirrando com os pulmões um pouco fracos, mal conseguia respirar. Tomei uma ducha gelada, o chuveiro era à energia solar. Arrumei os últimos preparativos da viagem, conferi se o celular estava ou não na mala, se tinha pegado a carteira, se tinha roupa o suficiente, esse tipo de coisa. Fiz uma inalação rapidinha, minha mãe é medica e me ensinou a fazê-la sem necessidade dela. Desci as escadas com calma não querendo fazer alarde com a minha ida para o desconhecido. Peguei as chaves de casa, uma douradinha de quatro segredos, coloquei devagar na fechadura e rodei-a de modo a não fazer barulho, não queria acordar meus irmãos e pais no meio da madrugada. Fui até a mesa onde ficava o telefone e deixei um bilhete com meu nome em cima, um daqueles bilhetes cheios de explicações e motivos. Abri a porta com cautela e parti para a rodoviária. Peguei o primeiro ônibus para o aeroporto que ficava em Guarulhos, depois de São Paulo. Era um ônibus simples, muito humilde, não era muita coisa, mas me levaria até o destino que tinha traçado; na verdade nem eu sabia pra onde iria direito, fiz tudo às pressas; meus pensamentos estavam meio vagos, sem sentido algum, faltava organizá-los de forma lógica e criativa, mas não estava muito a fim de fazê-lo no momento. Deixei que o meu senso de direção me guiasse, ele também era falho, mas era a única coisa que me veio pela cabeça no momento presente. Entrei no ônibus, que saia de São Bernardo do Campo, sentei-me perto da janela, pus meu capuz e encostei-me na janela, eu parecia triste e desanimado para quem olhava de fora, era essa a impressão que tinha. Eu estava meio depressivo, alias sou fleumático melancólico, não tinha muito que fazer a respeito, além de me agüentar naquela minha fossa deliciosa da madrugada.

Finalmente cheguei ao meu destino, depois de um punhado de horas. O Aeroporto; fui até o guichê, lá se encontrava uma mocinha muito bonita, pelo menos parecia aos meus olhos, ela tinha o cabelo acobreado e preso num coque bem feito, usava um uniforme bem justinho, parecia que acabara de lavar o uniforme, pois ele tinha um delicioso cheiro de amaciante, tinha belos olhos verdes que transmitiam uma simpatia impar e um belo sorriso, muito cativante.

– O que deseja? – ela disse muito simpaticamente, querendo me atender da melhor forma possível. E, de certa forma sua simpatia me conquistou de imediato e eu respondi as pressas.

– Vou querer uma passagem para… – atropelei as palavras, mas por um instante demorei um pouco para responder, pois queria ter certeza do que queria – Inglaterra… – ainda cheio de duvidas em minha decisão, acho que deixei transparecer, pois a atendente percebeu e disse:

– Tem certeza senhor… Hum…? – como querendo saber meu nome e se eu realmente tinha certeza de algo. Cocei a cabeça umas três vezes, meio acanhado por não ter me apresentado, eu teria que dizer meu nome mesmo, mais cedo ou mais tarde para preencher os dados da passagem.

– Heatsun – disse de imediato apressadamente, meu rosto corou e olhei para baixo meio de canto muito envergonhado, não sei o motivo, creio que achei a moça que me atendia mais bonita do que pensara de inicio; pausei-me tomei fôlego e disse meu nome completo para que ela anotasse direito – Luidge Cavallete Heatsun e, sim tenho certeza… Quero ir para Inglaterra – disse com firmeza, acho que a convenci desta vez. Mostrei a ela as passagens que a escola me forneceu e os meus documentos, RG, CPF, essas coisas.

A atendente me olhou com uma cara de estranheza, franziu as sobrancelhas, e me perguntou curiosa:

– O senhor é descendente de americanos?

Ela ficou lá com aquela carinha de anjo olhando para mim enquanto eu organizava as palavras em um arranjo simples de se entender sem mais delongas

– Não, meu avô é inglês. – a atendente ficou num silencio momentâneo esperando que eu me abrisse com ela, o que de fato não aconteceu. Ela balançou a cabeça e continuou o procedimento. Terminei de dar os dados necessários para a passagem e fui para o embarque, pois cheguei um pouco fora de hora, ou seja, o embarque já estava acontecendo. Ao embarcar fui direto para o meu assento e lá fiquei, coloquei meu capuz de novo, do mesmo modo melancólico da outra vez, fechei os olhos e por um instante pensei no que iria acontecer quando soubessem que eu havia saído de casa sem ter notificado ninguém; comecei a ter um excesso de lamentação pela minha família, não sabia quando e se eu os veria novamente, agora que tinha um peso a carregar, não podia mais ficar perto deles, sem que se machucassem ou se porventura não aprovassem esse peso que agora iria carregar para toda a eternidade, ou melhor, por toda a minha vida. Logo me esqueci destes pensamentos, adormeci por um instante.

Sonhei; ou melhor, tive um pesadelo inesperado. Eu estava no meio da cidade de São Paulo, totalmente sozinho. De repente eu começo a escutar um milhão de vozes pedindo por ajuda, querendo um lugar pra se refugiar, ouvi muitas pessoas cantando, outras pensando em casamento, umas vozes felizes e outras cheias de pesar. Um em particular me chamou atenção, uma voz que dizia meu nome e me chamava. Segui por onde aquela terrível voz me guiava, eu parecia um imã seguindo para o norte. Cheguei numa rede de esgoto. Lá as vozes em minha mente falavam outras línguas e percebi que estava a ponto de explodir, minha cabeça começou a doer consideravelmente. Era como se meu cérebro carregasse o mundo; como se fosse uma estação de rádio onde todas as freqüências se fundiam. Eu não agüentava mais. Meu nariz começou a sangrar, meu crânio estalou e mais sangue escorreu de minha cabeça. Uma mão negra desceu sobre minha cabeça. Sua palma ficou de frente com meus olhos. No meio dela, uma fenda começou a se abrir, parecia uma boca com dentes perfeitos. Assustei-me. Enquanto eu explodia de dor e medo, a mão negra gritava estridentemente.

Acordei assustado e meio de mau humor quando ouvi a voz estridente de uma garota a me chamar:

– Senhor! Senhor! – dizia a moça sem parar – o Senhor gostaria de uma coberta? – eu disse que não com a cabeça e voltei ao meu estado zen sofredor a que me encontrava no momento em que fui interrompido pela aeromoça, creio que ela era nova e sem experiência em como tratar os passageiros; sei lá com se deve tratar um passageiro; nunca fui aeromoça e não pretendo ser; mas dei graças quando ela me acordou, não suportaria mais um minuto naquele terror. Ao perceber isso, que talvez a aeromoça fosse nova, um forte pensamento tomou-me e percebi que, eu também estava em uma nova jornada, a atendente era nova e a aeromoça também era recente no trabalho ao meu ver, eu estava num mundo novo sem perceber, agora não tinha mais como voltar atrás, já havia combinado esse intercambio sem tempo de duração com a escola, tinha que seguir em frente.

Chegando à Inglaterra depois de horas a fio, desci do avião meio desconcertante e dirigi-me até o lugar onde eu seria recebido. O intercambio de tempo indeterminado na Inglaterra não ia ser num hotel, eu ai ficar com uma família de sobrenome Watson, logo me lembrei do Sherlock, foi por um breve momento, mas deixei transparecer com um sorriso sutil de canto, creio que poucas pessoas notaram. Lá estava quentinho, era primavera creio, não sou muito bom em clima, estações e coisas do gênero; tirei minha blusa e dobrei de forma fácil para carregar na mão, eu acho muito feio prender na cintura, é deselegante, e estando em um país rico como a Inglaterra, tinha que me comportar como se fosse um cidadão inglês, andei rápido pelos corredores do desembarque olhando cuidadosamente as placas. Peguei minhas malas, foram quase as primeiras a aparecerem. Continuei por rum corredor à direita; achei as portas do finalmente desembarque no fim do corredor, fui o mais devagar possível, pois estava sentindo um desconforto, uma ansiedade sem igual, já tinha sentido isso outra vez, mas nunca num aeroporto prestes a me entregar a outra família que me acolheria por tempo indeterminado; foi ai que caiu a ficha, eu iria ficar longe de casa por um tempo “X” com outra família que eu mal conhecia, ia ser a primeira vez que eu os veria, não sabia se eram legais, amorosos, se bem que a fama dos ingleses é a frieza a distancia, e eu estava acostumado com um lugar cheio de amor e abraços cheios de ternura, não sabia se ia me acostumar. À medida que eu chegava perto da porta, meu coração batia mais forte, parecia que ia enfartar a qualquer momento; finalmente cheguei, a porta era automática, reagia ao calor humano ou ao deslocamento de ar em abundancia, era péssimo para essas coisas que envolviam tecnologia. Era ruim em quase tudo no final das contas.

Ao passar por ela, meus olhos procuravam aflitos pela presença de uma família segurando uma plaqueta com meu nome, não consegui achar de primeira, tive que dar outra olhada bem devagar, conferindo cada placa que estava à minha disposição. Finalmente meus olhos reconheceram meu nome, era uma plaquinha branca, escrito Heatsun em preto no meio dela, era simples, mas acalentador, finalmente achei aqueles com quem iria passar um bom tempo. Eles eram num total de cinco; um homem de cabelos louro meio acinzentado com a barba bem feita, olhos azuis profundo, vestia uma camisa tipo pólo branco que estava para dentro da calça jeans azul escura dele, e tinha em seus ombros uma malha de lã salmão, eu achei muito chique, aparentava ter uns trinta, trinta e um anos, era um pai dedicado pelo pouco que pude avaliar. A moça ao lado dele, era sem duvida sua esposa, ele denunciou quando segurou a mão dela com total devoção, não do modo comum, mas o segurar entrelaçando os dedos, e dando um belo sorriso; ela possuía os cabelos lisos e acastanhados, com um toque dourado, olhos que pareciam gotas de chocolate; realmente muito bonita, ela usava uma saia preta muito básica, seus pés estavam apoiados em elegantes sapatos verdes do tipo agulha, muito altos, parecia ter a mesma altura de seu marido, um metro e oitenta arredondando mais ou menos, formavam um lindo casal, tive que admitir. Na frente deles havia três pessoas, logo, pela disposição delas, percebi que eram os filhos deles. Um da minha idade aparentemente, grande em altura devia ser maior que eu. Ele tinha o cabelo louro escuro, meio cobre olhos iguais aos de seu pai, bem vestido igual. Um menorzinho devia ter uns quinze anos no máximo; moreno de olhos verdes, agradável às vistas apesar de suas olheiras. Uma menina muito graciosa parecendo uma boneca, loirinha de cabelos longos e olhos de uma coloração que eu particularmente acho incríveis: Âmbar. A garotinha usava um vestidinho rosa simpático, devia ter uns sete talvez oito anos, estava segurando nas pernas de sua mãe, a primeira vista muito tímida. Aproximei-me da família devagar, num bom passo diria – Olá… – disse timidamente e acenando com a mão tremula.

– Luidge? Luidge Heatsun? – disse simpaticamente e com um belo sorriso e os olhos cheios de alegria a moça que seria minha nova mãe nessa nova aventura em que me colocara.

– Sim, sou eu mesmo… Prazer em conhecê-los… – disse o mais fluente que pude, acho que perceberam meu nervosismo e, provável sotaque.

– O prazer é nosso… – respondeu o pai de família – Meu nome é Charles Watson, essa é minha esposa Anna e, nossos filhos Summer, Jacoh e Ollivia… – ele apontou para cada um e eu assenti com a cabeça para todos.

– Pai… – disse Jacoh numa voz bem adolescente, não muito grossa e nem muito fina, querendo algo de Charles – A gente já pode ir? – ele parecia muito entediado com tudo aquilo, pois revirou os olhos depois de me olhar e suspirou como se me conhecer fosse realmente muito, muito chato.

– Claro! Nosso novo membro da família chegou. – fiquei surpreso por um instante, ele disse mesmo “o novo membro da família”? Foi isso o que escutei? Parece que sim, por um momento meu coração saltitou de uma vaga esperança.

Enquanto caminhávamos para o veículo da família Watson, analisei um pouco os filhos do casal. Summer ficava sempre ao lado do pai, segurando seu ombro, como se quisesse protegê-lo de algo que logo aconteceria, ele falava muito sobre a escola e coisas do time em que ele fazia parte e dava uns risinhos simpáticos toda vez que ouvia alguma coisa engraçada, creio que seremos bons amigos num futuro não muito longe. A menina vestida de rosa ao contrário de seu irmão mais velho, não largava da senhora Watson, era um grude. Vendo mais de perto, não tinha percebido que Ollivia tinha um olhar triste, quase gritante “quero colo!” fiquei meio aflito, mas a menina olhou para mim e forçou um sorriso esplendido, ganhei o dia, senti uma paz tremenda de estar ali perto dela. Enquanto os quatro avançavam na frente, Jacoh, o filho do meio, ia entre mim e sua família; ele andava com as mãos no bolso, olhando pro chão, com um semblante de solidão, luto e dor, tudo ao mesmo tempo. E para somar a toda essa presença que ele tinha, seu cabelo tinha uma franja realmente muito grande, tampando completamente seus olhos, vindo até o meio do nariz; creio que ele fique em segundo plano sendo o filho do meio, não devem dar muita atenção a ele.

Chegando no estacionamento do aeroporto, entramos no carro e fomos até a residência Watson. Pelo caminho fui meditando sobre as coisas que haviam de acontecer, mas logo fui interrompido. A pequena mão de Ollivia tocara-me e voltei meus olhos surpresos para a menina angelical.

– Está tudo bem com o senhor? – disse-me ela timidamente, mas com muita convicção do que estava falando. Balancei a cabeça positivamente para não deixá-la preocupada com coisas que ela não poderia entender e, além do mais, nem eu sabia direito quais eram minhas preocupações.

– Pode me chamar de Luidge.

– Hum… Tudo bem senhor Luidge…

– Só Luidge – adverti simpática mente – Não precisa do senhor.

– Hum… Tudo bem senhor Luidge… –  Ela continuava a me chamar de senhor, não pude fazer muita coisa a respeito. Tentei distrair-me de meus pensamentos falando com Ollivia.

– Quantos anos você tem Ollivia? É Ollivia né? A menina com carinha de anjo ergueu suas mãozinhas e me respondeu.

– Oito anos… E… É Ollivia sim… Senhor Luidge…

– E a senhorita – Não era muito bom em trocadilhos, mas tentei imitá-la para ver sua reação – Gosta de fazer o que? Ele pensou um bocado para me responder. Eu também tenho um irmão de oito anos e geralmente ele responde tudo sem pensar a respeito, sempre mudando sua opinião é um saco, mas uma graça de menino. Fiquei um pouco com saudade, mas antes de me entregar a tristeza e a duvida Ollivia interrompeu-me.

– Passear no parque e tomar sorvete de morango…

Senti uma alegria estranha surgir e meus lábios começaram a abrir-se num sorriso tímido ao contrário de Olly (apelidara a menina de cabelos dourados como o Sol em meus pensamentos) que me mostrara seus radiantes dentinhos num largo sorriso. De algum modo a inocência dela me deixava feliz como da outra vez que sorriu pra mim. Acho que foi bom “fugir” de casa, apesar de tudo, nesse intercambio as pressas. Ao se aproximarmos da residência dos Watson, senti como se estivesse de mudança: Uma nova família e uma nova casa. Eles moravam num bairro muito elegante; o Senhor Watson disse o nome, porem eu estava tão surpreso com a casa deles que não me preocupei em guardar. A casa tinha aparentemente dois andares inteiros e enormes, um sótão de tamanho considerável, provavelmente um porão e um jardim do Éden. Tudo o que eu não tinha na minha terra natal. Tenho tudo na verdade, só que de tamanho bem reduzido e sem o aparente porão.

– Gostou? – disse a Senhora Anna com um sorriso materno no rosto. Balancei a cabeça como num sim tímido, porem muito sério. – É aqui que você vai morar a partir de agora. – acrescentou ela – sinta-se em casa.

Jacoh passou por mim como se eu não existisse trombando comigo. Derrubei minha mala no chão. Abaixei-me para recolher minhas coisas. Summer se aproximou de mim e me ajudou a recolher. Ele era quente, uma espécie de calor que emanava dele. Sei lá talvez seja só o calor do ambiente, estava realmente quente.

– Jacoh é assim mesmo, não liga não – disse ele – vem vou lhe mostrar seu quarto.

Anna me incentivou a acompanhá-lo e o segui casa adentro. Por dentro, a casa era incrivelmente magnífica, digna da realeza. Era tudo muito delicado e elegante, creio que muito, muito caro também. A casa por dentro tinha um cheiro peculiar e muito famoso também; Chá e bolo, muito típico dos ingleses. Meu avô adorava chá de camomila e bolo mármore. As paredes eram de um tom que eu classificaria como marfim. Todos os móveis da sala, a maioria pelo menos, era marrom, castanho e, o que era de madeira, realmente era madeira; sabe? Aquelas de famosas madeiras-de-lei. Segui Summer pelas escadas.

– Chegamos! – disse ele num tom de surpresa – é aqui que você vai dormir – continuou ele. O quarto estava um pouco bagunçado e quando eu ia começar meu devaneio… – Está um pouco bagunçado né? – Summer continuou – eu me esqueci de arrumar nosso quarto, desculpa…

– Nosso?! – perguntei surpreso e balançando a cabeça pasmo.

– É. Nosso. Meu e seu de agora em diante.

– Pensei que eu ia ficar sozinho, pois acabei de chegar e não queria incomodar… – comecei a explicar minha surpresa anterior, mas fui bruscamente pausado por Summer.

– Calma. Espera um pouco, respira… – respirei fundo e ele continuou – você fala demais quando nervoso né?! – assenti. Ele estava redondamente certo sobre o assunto. – a idéia inicial era de você ficar sozinho para adaptação, mas meu querido irmão não quis ficar comigo… Então você fica comigo aqui. Entendeu? Balancei a cabeça. – Agora arruma suas coisas, minha mãe não gosta que o jantar esfrie.

– O.k.

Summer desceu as escadas correndo. Eu entrei no quarto. Era muito abafado lá dentro, tinha até um cheiro forte de praia. Abri as janelas para ventilar. Uma brisa gostosa assolou o quarto, levou o calor e o cheiro de protetor solar embora e me senti bem melhor. Abri minha mala e comecei a tirar minhas roupas e por no armário vazio. Estava escrito meu nome numa folha na porta do armário, então foi fácil identificar qual era minha parte dentro do grande armário. Após arrumar minhas coisas, fui até o banheiro que ficava no corredor; lavei minhas mãos e meu rosto, olhei para o espelho e conferi meus olhos castanhos claros brilhando com a forte luz do armário do banheiro, meus cabelos castanhos molhados com a água que lavara meu rosto pálido de não gostar muito de Sol e disse a mim mesmo

– Pronto. Quando fui sair do banheiro, Olly estava parada me olhando. Levei um pequeno susto. – O que foi Ollivia? Demorei muito? – ela tava com uma cara de brava olhando pra mim. Ela estendeu a mão e disse numa expressão mais envergonhada:

– Vem comigo… Minha mãe ta chamando para jantar…

Sorri pra ela e estendi minha mão para pegar na dela. Ela estendeu em falso como se tivesse dúvida se pegava ou não nela, mas por fim criou coragem e pegou. Sua pele corou e eu soube que ela gostava de mim, não sei o motivo, mas era divertido ter alguém que gostava de mim naquele momento, mesmo que fosse uma criança.

Descemos as escadas e fomos jantar.

CAP.00

PRÓLOGO

Durante muito tempo, nossa anomalia nos fez crescer em poder nas eras antigas. Nossos ancestrais eram chamados de deuses, Titãs ou seres cheios de puro poder; Alguns foram conhecidos como anjos ou ninfas por possuírem uma áurea totalmente especial ligada à natureza ou ao sentimento das pessoas. Os mais famosos são os conhecidos Super-Heróis, que ilustram HQs pelo mundo todo.

Estamos em toda parte, mas pouca gente sabe de nossa existência nos dias atuais. Porem quando descobertos, somos caçados até a morte ou colecionados como figurinhas, ou borboletas.

Estamos em constante perseguição. Você quer saber o porquê de toda essa procura insaciável?

Alguns são muito valiosos. E quando digo valiosos, realmente somos como verdadeiros diamantes; disputados por nações.